quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Os para sempres e os nunca mais

Todos os meus nunca mais estão guardados em uma caixinha decorada com pedras coloridas.

Os meus nunca mais estão empoeirados porque os venho usando cada vez menos. Mas eles já me foram muito úteis, aplicáveis a quase tudo e quase todos. E eles eram bons de usar. Facilitavam muito a vida. Com o tempo eles foram sendo menos eficientes, talvez porque eu comecei a descobrir que eles já não me saciavam e não me aliviavam.

Nuncas quase nunca existem.

Nuncas são negações de verdades que podem sim ser possíveis de vez em quando. A questão é que lidar com o de vez em quando, lidar com nossos quandos, com o acaso, com a incerteza e a espera é angustiante.

E queremos nuncas, sempres, certezas. E tudo o que a vida nos dá são possibilidades. Eu venho tentando brincar com as minhas, explorá-las. Os meus nunca mais estão lá na minha caixinha colorida. Confesso que às vezes a tentação é de ir lá buscar algum, só para brincar com alguma nova certeza. Mas logo isso se vai também.

E eu fico aqui, brincando com o meu possível e com meus sonhos, porque esses sim, eu já tirei da caixinha colorida há um bom tempo.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Desejos de ano novo


Em 2010 vamos transformar "No" em "Now"!!!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

eu não me livro de mim

Hoje me deu vontade de tentar ler mais do meu próprio livro. Esse livro que eu imagino, que eu sonho e que existe bem aqui, dentro da minha cabeça. Ele existe tanto e tem tanta forma, tanta espessura e conteúdo que fica pesado demais para ele existir, porque eu sei que ele nunca vai condizer, enquanto crua realidade, com o que eu espero dele. Mas não acho que é pelo livro que eu estou esperando. O livro é um simbolo, é um significante. O livro sou eu. O livro já existe. Por que preciso dar forma a ele? Por que preciso me colocar em letras e versos para ser legível? Sou passivel de leitura e tradução? Alguém é? Preciso mostrar minhas letras a quem? Hoje sei bem quem pode me ler. Sei bem o que tento escrever. Eu sou uma tradução de um livro que ainda está sendo escrito. Hoje eu não consigo dar letras para sentimentos e talvez nem deva. Por que será que somos assim iletrados quando é para falar do coração?

É curioso como não sei dizer quem sou.
Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer.
Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento
em que tento falar não só não exprimo o que sinto
como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo."

Clarice

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Por uma vida menos ordinária

Prosaica é a escrita.
A vida é poética sempre

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Um fim que é um começo

Pouquissimas vezes na vida eu vivi um fim de ano como esse. Geralmente eu vivo esse período do ano como encerramento, como revisão de atitudes, escolhas, decisões. Um momento reflexivo, mais introspectivo e até mesmo um pouco triste, recolhido.

Esse ano eu estou vivendo essa época como recomeço. Novo início. É como se hoje eu já estivesse vivendo as águas de março fechando o verão e a promessa de vida no meu coração. Talvez porque eu tenha passado o ano todo revendo minha vida, revendo minhas escolhas, fazendo planos para o meu novo ano, que não tem a mesma cronologia de um calendário. Estou em pleno março, recomeçando atividades, com pique de me engajar em novos projetos, novos rumos.

E o melhor de tudo é que para mim é março e ainda tenho um lindo verão pela frente...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Que eu seja...

De menos ingenuidades, mas sem perder a pureza

De menos raivas, mas sem perder agressividade para a luta

De menos temores, mas sem perder a prudência

De mais amor, mas sem perder quem eu sou

De mais roupas dobradas, mas sem perder a preguiça

De mais lavanda, de mais açucar, de mais beijos

De menos medo, menos palavras perdidas, menos silêncios

Que eu seja toda carne, toda sonho, toda.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Há um ano crendo para ver

Amanhã esse blog completa 365 dias de vida. 241 posts no total, contando com esse que você está lendo agora. Conversando com meu irmão sobre esse "aniversário", falávamos sobre a importância de vermos nossos sentimentos, idéias, devaneios e ficções datados, marcados no tempo, já que a vida é tão intangível e subjetiva. Poder ter essa marca, algum número que mostre pelo que passamos é estruturante, ajuda a viver.

Olhando para trás nesses 241 posts, vejo que já passei pelos mais diversos sentimentos e sensações. Provoquei idéias, posso ter provocado inquietações, reflexões, risadas. Cada um leu como quis cada um desses pedaços de mim que formam esse espaço que eu tanto gosto. Momentos de mais exposição, momentos de feridas abertas, momentos de plenitude, momentos de alegria ou de solidão. Tudo aqui.

Não sei quanto tempo isso ainda vai durar. Tenho plena convicção de que esse blog é a minha cara, é o reflexo do que sou. Nem que às vezes seja quem eu gostaria de ser e ainda não sou. Não importa. Tudo é reflexo de mim, reflexo de quem passa por aqui, reflexo de quem está ou já passou pela minha vida. E já não diferencio mais a vida "real" da vida "virtual"... É tudo VIDA, é tudo presente.

Agradeço a todas as pessoas que passam por aqui. Os que sempre deixam seu recado, sua reflexão, aqueles anônimos que só lêem... Espero que algo de bom fique de tudo isso que já foi escrito. Espero que isso seja apenas o começo. Espero que essas palavras todas sigam ganhando vida, saindo dessa tela, que sigam me fazendo sentido e me fazendo ser cada vez mais feliz.

Porque eu simplesmente não canso de acreditar na vida...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O ministério da saúde emocional adverte

A vida não foi feita para ser indolor
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A felicidade não é uma benção. É uma conquista

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O sofrimento não é opcional; aos olhos atentos, é presente

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O amor é inevitável. impensável. indomável

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Aprender a odiar a si mesmo é uma lição de amor

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Perdão não deveria ser um esforço; nem obrigação

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Estar exatamente onde se deseja estar é merecimento, não sorte.

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"Ter quem se quer" e não "querer quem se tem"

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Desapego, mais do que a arte de saber o que é supérfluo, é a arte de saber o que é indispensável.

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Atire-se no abismo e cairá em si mesmo. O que lhe aguarda lá embaixo - terra árida, grama macia ou colchão de molas - foi você mesmo quem escolheu. Está escolhendo agora.

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Não ser autêntico é prejudicial à saúde

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Juan Gelman e a quinta-feira

El atado

Escribir sin contar es como vivir sin vida. Las palabras serán inocentes, pero no su relación. El contador traza una columna del "debe" y otra del "haber" y en la última anota los silencios que supo conseguir. Con las caras de una palabra quisiera hacer piedras y mirarlas todas hasta el fin de mis días. Esas caras siempre tienen otras fugitivas de la boca. Morder la piedra, entonces, es la tarea del poeta, hasta que sangren las encías de la noche. En esa noche navegará sin rumbo fijo, desconfiado de todo, en especial de sí, mirando espejos que cantan como sirenas que no existen. El poeta se atará al palo mayor de su ignorancia para no caer en sí mismo, sino en otro país de aventura mayor, muerto de miedo y vivo de esperanza. Sólo el dolor lo unirá muertovivo al vacío lleno de rostros y verá que ninguno es el suyo. Y todos serán libres.

***

Una mujer y un hombre

Una mujer y un hombre llevados por la vida,
una mujer y un hombre cara a cara
habitan en la noche,
desbordan por sus manos,
se oyen subir libres en la sombra,
sus cabezas descansan en una bella infancia
que ellos crearon juntos, plena de sol, de luz,
una mujer y un hombre atados por sus labios
llenan la noche lenta con toda su memoria,
una mujer y un hombre más bellos en el otro
ocupan su lugar en la tierra.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Da ausência de relógios

Meus ponteiros não giram mais
nem apontam números em círculos
Não é assim que enxergo o tempo

Assisto um mundo sinuoso, descompassado
e ritmos que nao obedecem ordem.

São meras sequências de intangibilidades:
carne, vento, maciez, nuvem, agua e música

Esse é o unico tempo re-lógico:
Etéreo e eterno

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A função mix

Ela nao sabia que a vida sempre teve a mesma função mix da câmera Lomo que usava. A função mix coloca, em uma mesma imagem, cenas de "clicks" distintos, como se estivessem sempre ali, integrados. Ela, que nunca havia aproveitado o seu mix como poderia. Ela, que passara a vida tentando distinguir cada imagem, separar eventos, pessoas, separar a razão da emoção, o lógico do irracional, o amor da dor, via-se então misturando cenas e sensações em seu olho diafragmático.

Não havia mais como separar sua história nem seu corpo de sua vida. Ela agora era uma, íntegra, inteira e imperfeita. A fotógrafa de sua própria história.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Quando a Independência é o melhor caminho para regressar


We shall never cease from exploration
And the end of all our exploring
Will be to arrive where we started
And know the place for the first time.

T. S. Eliot (1888 - 1965)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Odeio quem não sabe chamar elevadores

O pequeno painel eletrônico acima da porta indica que o elevador ainda está a muitos andares de chegar até mim. A porta fechada e eu ali o esperando. Outra pessoa então se aproxima, eu a olho por um milésimo de segundo e sorrio muito discretamente. Cansei de me emprestar assim por pouco. Sorrir não é mais tão simples, não é apenas mostrar os dentes. Sorrir hoje carrega um esforço de erguer os cantos da boca repuxados por uma esperança que ultimamente tem me faltado.

Eu não quero mais olhar para a pessoa que aguarda pelo elevador ao meu lado. Odeio pessoas que não sabem chamar o elevador: se querem subir e o elevador está andares acima, apertam o botão para ele descer. Pessoas estúpidas que acham que podem mandar o elevador descer até elas. Devíamos tratar elevadores e pessoas do mesmo jeito. Sinalizamos o que esperamos deles. E então que ele venha até nós. Não posso mandar que alguém desca ou suba até mim antes de dizer o que vou fazer com esse alguém. Odeio quem não sabe chamar elevadores. Odeio quem não sabe chamar por mim. Odeio o fato de pessoas não serem tão simples como elevadores e, ainda assim, até os elevadores parecem tão difíceis para tantas pessoas.

Quando a porta finalmente abre, entro e dou uma rápida olhada para minha imagem no espelho. Pareço cansada. Olheiras disfarçadas pela base e pelo pó, mas não disfarçadas pelo brilho dos meus olhos que instantes atrás se apagou. Não sei se foi o peso do dia, se foi a expectativa ainda não alcançada ou o café morno e fraco da lancheeria da empresa. O rímel parece estar ali tentando erguer meus cílios com a mesma força que tive que fazer para levantar da cama nessa manhã. Olho para mim mesma no espelho como quem cumprimenta um conhecido distante, com um mero levantar de sobrancelha.

A pessoa me acompanha, entra e permanece ao meu lado. Estamos indo ao mesmo andar. Descendo. "Térreo, por favor", ela diz. Não sou ascensorista e vê se presta atenção. Eu já tinha apertado no térreo, não viu a luzinha do "P" acesa? Essas palavras só gritaram na minha mente, é claro. O silêncio desceu conosco do 7° andar ao térreo. E aliás, por que o térreo é representado pela letra P? Por que não T?

Não tô nem aí se não falo nada, se ela não fala nada. Não quero olhar para o lado, não sei nem a cor da blusa que essa pessoa usa. Nem mesmo sei se é homem ou mulher. Não me importa. Só quero ir para casa. Estou cansada. O elevador pára e antes que pudéssemos sair logo daquela caixa , uma senhora toda sorridente na recepção do prédio pergunta: "Sobe?"

Odeio quem não sabe chamar elevadores.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Mudas

Estou muda. Garganta arranha. Vida dificil de engolir.
Sou muda. Semente nova. Me rega para eu florir.
Então muda. abandona o antes. E pode vir.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Do pouco que sei


Meu futuro sempre será musical...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

one-way ticket

Se ela soubesse que as perguntas não teriam fim e que na verdade ninguém nunca iria contar nada sobre tudo, ela cresceria com medo, insegura, querendo colher pela vida vestígios de evidências de que a vida poderia mesmo valer tal pena.

Ela não tentaria, no futuro vindouro, se disso tudo soubesse, se preocupar onde ela habita; onde mora sua essência. Ela teria sido, então, uma criança acuada, observadora e reservada; e não assim como foi, sempre dada a pequenas bobagens e confianças.

Se ela soubesse que passaria a alojar em seu corpo uma angústia que até então nunca havia sido sua, trataria de ter se preocupado menos em ser complexa e intensa quando ainda tinha tempo de ser vil e inconsequente. Fútil e fugaz.

Mas agora é tarde e essa moça pensa. E essa moça pesa. Em seu íntimo ela sempre soube que valeria a pena a densidade. Sempre soube que seria mais difícil se relacionar com os outros e ser compreendida por si mesma.

Mas ainda havia muito a saber. Ainda há muito. Ela não é, mas um pouco sempre será, a menina das pequenas bobagens. Ela já sabe que não há como saber onde mora sua essência. Ela sabe que sua essência está no mundo. E que o mundo nos escapa a cada segundo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Testemunha

Beverly: Por que você acha que as pessoas se casam?

Sr. Devine: Paixão?

Beverly: Não.

Sr. Devine: Interessante, eu pensei que você fosse uma romântica. Então, por que é?

Beverly: Porque precisamos de uma testemunha para nossas vidas. Há um bilhão de pessoas no mundo, que importância tem a vida de cada pessoa, na verdade? Mas no casamento, você se compromete a se importar com tudo. As coisas boas, as coisas ruins, as coisas terríveis, as coisas comuns… com tudo, sempre, todos os dias. Você diz: “a sua vida não passará sem ser notada, porque eu estarei lá para notar. Sua vida não ficará sem testemunhas, porque eu serei a sua testemunha.”

* Cena do filme "Dança Comigo", extraida do ótimo site
Picadinho de Roteiro, dica quentíssima da parceira blogueira Milena. Vale conferir!

Rehab

Queria que todas as minhas ânsias fossem envoltas, conduzidas e intoxicadas pela fumaça fosca, às vezes cinza, que acompanha o suspiro de quem é viciado em nicotina. Eu? Desse vício eu não sofro. Minha droga é nós dois.

Zerada

Sinto-me cansada demais para criar qualquer tema mais elaborado em minha cabeça. Não faço frases bonitas, não escolho palavras rebuscadas. Quero só as simples: cobertor, música, lágrima, livro, sorriso, café, beijo, sono, abraço, lápis, travesseiro e pantufas.

Não sei mais escrever nada. Agora, só quero tudo.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

desabafo

Tava aqui pensando nessa história de blogs. Não sei o que me traz tanto aqui. Não sei porque tudo que escrevo aqui não poderia estar escrito em um caderno só meu. Afinal de contas, é para mim que escrevo o que escrevo. Ou então, quando penso em alguém quando escrevo um post, que então eu escrevesse numa folha de papel e entregasse diretamente e somente àquela pessoa. Ou melhor, e cada vez mais raro: ir ao encontro da pessoa (quando possível) e falar tudo ao vivo, cara a cara, com minha própria voz.

Mas a gente foi criando cada vez mais barreiras para esse contato direto e cada vez mais o mundo dos blogs, twitters e messengers vem tomando o lugar dos contatos reais. E vem o velho problema da comunicação. Eu digo o que sinto? Eu expresso com as palavras certas um sentimento que por vezes é tão abstrato e complexo que muitas vezes só um olhar ou um toque poderiam dizer com precisão?

Sei la. No fim das contas acho que os problemas de comunicação estão ao vivo, por telefone, por computador, por blackberry...

As vezes me canso disso tudo.

Mas é assim no blog. É assim na vida. Vamos estar sempre lutando para tentar nos comunicar e expressar o que a gente sente. E TENTAR sermos compreendidos, quando possível.

Será que vocês me entenderam?

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Campo de batalha

Primeiro arranquei meu estômago
para que eu engolisse todo possível
E chegasse até meu âmago.

Em seguida foi a vez do rim
Então não havia filtro para impurezas
E eu pude enxergar tudo, enfim.

Logo retirei meus pulmões e pâncreas
E meu fôlego e minha saúde acabaram,
juntamente com minhas ânsias

E agora já estou sem ação
Vazia e pura como eu queria,
Somente cérebro e coração

A carcaça que restou
Deixei como campo de batalha
Para essa luta, que ainda não findou

Não sei por qual dos dois mais me guio
Só sei que aos poucos me retransplanto
E quem sabe assim, devagar, me recrio.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Frases soltas

Em terra de cego, quem tem um olho é desacreditado por enxergar o que os outros não podem ver
.:.
Para um bom entendedor, meio olhar basta.
.:.
Queria que a vida tivesse vácuo
.:.
Nasci pronta para morrer despreparada
.:.
Ontem Bukowski me engoliu. Ou - como ele diria - me comeu
.:.
Descobri que insights fortes demais me fazem ter vontade de rir
.:.
Contrariando o poeta: Eu só vou gostar de quem gosta de si
.:.
É preciso estar pronto para ter sorte
.:.
A pior prisão do mundo somos nós mesmos
.:.
Uma amiga pequena pode ser a pessoa mais gigante da sua vida
.:.
Clarice Lispector é minha mãe. Cortázar, meu pai. Drexler, meu irmão.

sábado, 7 de novembro de 2009

Simplesmente ela

Simplesmente ela é quem me fez acordar as 7 da manhã, com olhos atentos, mesmo com um resto de sono, mas sem vontade de estar mais adormecida. Uma vontade de despertar, uma vontade de ser mais e por mais tempo.

Não posso descrever o que senti após apenas 1 hora e 15 minutos de Clarice Lispector na veia. Ela estava ali, personificada por Beth Goulart, brilhante, diante dos olhos da platéia; nua, exposta, brincando conosco, nos mostrando o que a escrita significava para ela, mostrando como tentava ensinar às suas personagens como viver mais, como ver o sublime em qualquer folha, em qualquer coisa. Ensinou que o horror está mais dentro de nós do que sempre suspeitamos, e que é sempre no ordinário que a verdade se mostra a nós. Ela dizia que não escrevia por notoriedade. Que escrever era uma necessidade básica como beber água, como comer e que nunca quis notoriedade através de sua escrita.

Me senti pequena. Me senti desafiada, me senti com vontade. Mas quem sou eu para querer ser alguém? Mas quem sou eu que também quer ser ou por vezes se julga ser escritora depois de ouvir e ler Clarice? Como ela conseguia escolher tão bem palavras doces e fortes, suaves e profundas e ao mesmo tempo ser tão simples, tão direta, tão visceral?

Eu não sou Clarice. Eu sou Luciane. Eu não sei se sou escritora e às vezes perceber que o blog é um espaço de vaidade sim, de notoriedade sim, me envergonha. Ao mesmo tempo, é esse espaço aqui que me fez escrever mais, é isso aqui que me fez querer sentar ao computador as 7 da manhã de um sábado e falar sobre tudo o que assisti e não assisti. Pensei ontem em como seria se Clarice vivesse nos dias de hoje. Será que ela teria um blog? O que pensaria disso?

Eu não consigo ter tudo registrado na minha mente. Todo o texto. Queria guardar tudo num gravador mental para poder ouvir de novo e de novo. Ela ensina a viver, ensina a não ser simples na vida, ensina a gente aceitar e querer o não-ser, o não-saber. Isso alivia mas também provoca, inquieta. E ontem eu senti uma sensação que poucas vezes já senti: momentos de tamanha beleza, de um texto tão sublime, que as lágrimas chegavam com uma felicidade e uma tristeza nas mesmas proporções e as lágrimas também davam uma vontade incontrolável de rir, não sei se de nervosa, não sei se isso ocorre quando a gente finalmente se enxerga em algo ou em alguém. Uma tensão. Uma paixão. Um tristeza profunda e uma alegria imensa ao mesmo tempo.

Isso é tudo que eu consigo dizer por enquanto. Eu quero mais Clarice na minha vida. Eu quero ainda mais poesia, ainda mais música, ainda mais arte na minha vida. Quero ainda mais complexidade na minha vida. Sim, sim, eu quero ser complexa, quero ser sinuosa; não quero ser óbvia, não quero ser estável, não quero ser simples. E quero equilibristas como eu por perto. Quero quem possa encarar os abismos da vida comigo, para que então possamos cair na gargalhada, porque vamos descobrir que na verdade é o abismo quem nos olha.

E seguir pela vida, escrevendo, amando e sendo boba.
Simplesmente eu.


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Tarja preta

Endovenoso quando
escorregar por minhas vias,
invadir meus órgãos,
irrigando todas as bordas
e superfícies internas.

Subcutâneo quando agir,
bordeando minha camada exterior,
sondando de perto a minha derme,
Me enxergando inteira por dentro,
drenando quem eu tento ser.

Oral quando eu o engolir e
for ele quem me devore, me sorva.
Percorrendo minha garganta e
indo direto ao meu estômago
Ora minha náusea, ora meu conforto.

Que seja essa a minha droga, meu remédio.
Que eu conheça toda sua posologia,
As contra-indicações,
E a dose que possa ser fatal.

Não quero mais bulas.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Limites

Agora chega, ela disse. Não, ela não disse. Ela cuspiu essas palavras só depois de terem sido ditas por ele. A originalidade nunca fora seu forte. Não havia mais nada a ser tentado porque não havia mais dor que coubesse no peito.

Ela seguiu: Preciso aprender a impor fronteiras para saber até onde vou e ate onde tu chegou em mim. Não quero, mas preciso. Não posso, mas devo. Me ajuda. Se minha pele falasse agora ela iria gritar, iria pedir que tu a domasse, que tu a perdoasse, ela iria dizer que eu me perdoei, que perdi todos os pelos do meu corpo queimados pelas minhas chamas que te arderam tanto tambem. Agora estou cansada. Só preciso dormir um pouco.

Não existe tempo, não existem anos, nem dias. Existe, sim, uma eternidadade que recai sobre minhas costas. A eternidade do que eu nunca havia aprendido antes. A eternidade de tudo o que não seja tarde. Tudo que não tarde.

E assim se foram, até o próximo nunca mais.

LÍMITES
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí la sed,hasta aquí el agua?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el aire, hasta aquí el fuego?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el amor,hasta aquí el odio?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el hombre, hasta aquí no?
Sólo la esperanza tiene las rodillas nítidas. Sangran.
Juan Gelman

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Pobre Narciso

O grande golpe foi quando descobriu que era ele quem estava preso dentro das águas do rio. Apenas uma imagem encapsulada, refém da estiagem que não tardaria em chegar.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Drive with your mind

Feriado com direito à praia mas, consequentemente, algumas horas de estrada e mais consequentemente ainda, algumas oportunidades de reflexão.

Enquanto dirigia e ultrapassava, comecei a perceber o quanto nossa vida e forma de viver podem ser relacionadas a uma viagem dessa natureza. Claro, viagem nas estradas brasileiras, porque se fôssemos falar das auto-bans européias a vida seria bem mais fácil...mas muito mais rápida.

A cada ultrapassagem que eu fazia ficava aliviada pensando: "Ufa, ultrapassei esse caminhão lento, agora foi". Alguns metros adiante, outro caminhão e vários outros carros que, como eu, queriam chegar o quanto antes ao destino. Então, cada ultrapassagem é um esforço e tem que ser curtida, tem que ser um esforço, mas não adianta vibrar muito porque logo ali em seguida haverá outros, e o caminho nunca estará completamente livre para que aceleremos na velocidade que gostaríamos. E não é assim na vida também? Cada desafio ou cada problema que enfrentamos pensamos: "Quando isso passar, daí sim tudo vai ficar bem, daí sim vai dar certo, daí sim chego onde eu imaginei". Mas então outro caminhão aparece e temos todo o esforço de novo. Mas dirigir na estrada não é uma delícia? Quando a estrada está muito vazia, muito reta e muito igual não dá um sono? Pois é. Se na vida também não tivéssemos nossos caminhões iríamos dormir mais cedo. A adrenalina da ultrapassagem é que nos mantem vivos.

E aí, quando já no meu destino, conversando com a minha mãe sobre a vida e coisa e tal falavamos sobre o tempo e as oportunidades, quando ela diz: "e a vida passa tão rápido, e é só uma". Apesar de ser uma colocação das mais óbvias, dessa vez ela ficou retumbando na minha cabeça. E logo me veio a palavra que tem a ver com meus devaneios rodoviários: Velocidade.

Qual é a velocidade certa de uma vida? Daí pensei que na fase de vida que eu me encontro eu quero começar a ver as coisas acontecerem mais rápido. Quero crescer profissionalmente, emocionalmente, afetivamente, construir uma família, poder conquistar tantas coisas que eu sonho...e a medida que os anos passam vamos tendo mais pressa. Mas o que mais vou tendo certeza é que quanto mais pressa temos menos conseguimos isso. Mas não dá para ficar parado também! Então, qual é a velocidade certa?

Por enquanto eu ainda não sei. Na estrada temos pardais, controles de velocidade, limites. Na vida, não temos como medir essa velocidade, mas somos, e muito, multados por nossas infrações. Só sei que é preciso continuar com o motor rodando e que, assim como na estrada, muitas vezes a pressa pode ser fatal.

Sigo em viagem.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

The little things...there's nothing bigger, is there?


WAKING LIFE
* Dream is destiny.

* The worst mistake that you can make is to think you're alive when really you're asleep in life's waiting room.

* The ongoing WOW is happening right NOW.

* The idea is to remain in a state of constant departure while always arriving.

BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS
* I'm just a fucked up girl looking for my own piece of mind, I'm not perfect.

* I could die right now, Clem. I'm just... happy. I've never felt that before. I'm just exactly where I want to be.

* McRomance. Want some fries with that shake?

ADAPTAÇÃO
* What I came to understand is that change is not a choice. Not for a species of plant, and not for me.

MAGNOLIA
* "We may be through with the past, but the past ain't through with us."

* In this life, it's not what you hope for, it's not what you deserve - it's what you take!

* I'll tell you everything, and you tell me everything, and maybe we can get through all the piss and shit and lies that kill other people.

BONECAS RUSSAS
* Mr. Everyman is seldom met in... everyday life.

* If I were you I would call me.

VANILLA SKY
* Do you remember what you told me once? That every passing minute is a another chance to turn it all around.

* Relax, David. Open your eyes.

* Just remember, the sweet is never as sweet without the sour, and I know the sour.

* It's been a brilliant journey of self-awakening. And now you've simply got to ask yourself this: * What is happiness to you, David?

* The little things... there's nothing bigger, is there?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A estética do poço

As paredes do meu poço são fundas, marcadas.
Ele foi construído cautelosamente, ao longo dos anos
A cada boicote, a cada falha, mais escavações.

Ele foi construído com cuidado e sem controle
e fica ali, à minha espreita
Quando convoca, mas também repele

Quanto mais fujo, mais preciso dele
Porque ele me acorda e me alerta
Para meus passos não serem fundos demais
Para minhas pisadas nao esmagarem meus sonhos,
Para meu corpo não se distanciar do que preciso

As paredes do meu poço são arranhadas,
Marcadas pela luta das minhas unhas
Não pelas quedas, mas pelas subidas.
Jamais lutei contra as quedas porque
tantas vezes eu mesma me atirei sem saber.

Às vezes o observo de cima,
as vezes nas bordas, às vezes
em seu fundo mais fundo.

Porque só quem conhece
sua parte mais bela e mais suja
pode transformar o poço em posso.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

fôlego


But as long as the questions remain, we are still breathing...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

CTI

Marcapasso para as batidas
desritmadas pela saudade

Colostomia para os restos
Esquecidos por tua vaidade

Prótese para os estragos
da falta de verdade

Dreno para os líquidos
expelidos na calamidade

Deixaremo-nos morrer assim,
com tão pouca idade?

Descosturas


Se tu soubesses como eu quis te curar. Se eu soubesse desde o princípio que palavras não curam nada. Palavras encruam quando é o corpo que padece. Tu estavas cansada, entregue. Aventurei-me contigo porque sabíamos que tu queria mais do que um corpo doente podia. Querias te reconciliar com a fortaleza que tu criou, derrubar as tuas certezas. E eu fui contigo; apedrejamos, dinamitamos, arrebentamos. Sentimos juntas as escoriações.

Mas era teu o corpo que sofria. E foi ele a barreira final contra a qual nada pudemos fazer. Tu não conseguiu me avisar, ou eu não consegui ouvir. Sei que foi assim. E talvez seja assim simples mesmo. O corpo é sempre nosso obstáculo final, e ele só avisa isso no fim. Eu sigo aqui na minha luta, na luta que fiz contigo, em todas as minhas outras lutas.

Meu corpo segue.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Regra do dia

Hoje eu quero ser simples e pura.
Só.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Quando eu soltar a minha voz...



Eu escrevi duas vezes um texto sobre o poder da palavra falada em relação à palavra escrita para postar aqui. Nas duas vezes, por algum motivo, quando publiquei o post, o texto sumiu. Pensei, pensei, e acho que não teve maneira melhor de comprovar a verdade do que eu estava querendo dizer: Que uma palavra escrita pode até estar eternizada numa folha de papel, num livro ou num blog; Mas a palavra falada, quando bem ouvida, é muito mais imortal... Então, não vou escrever meu texto pela terceira vez.

O que eu vou fazer é soltar a minha voz, e não as minhas letras...

"E se eu chorar e o sal
molhar o meu sorriso
Não se espante, cante
Que teu canto é minha
força para cantar.

Quando eu soltar a minha voz
por favor, entenda
É apenas o meu jeito de viver
o que é amar..."


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Para uma sexta-feira...

...que já começou bem acordando ao som de Cartola.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

À vista


Aos 12, fiz um óculos de vidro
para fingir que era de grau.
Aos 31, não posso mais
fingir que não enxergo:
Cada escolha é mortal.

domingo, 11 de outubro de 2009

Apenados

Dessa pena que aqui em cima voa
Não venha dela sentir pena
Porque pena é leve
E só quero que de mim ela leve
o peso das coisas que não sou

Tento tudo que puder valer a pena
Porque se és tu quem pena
Por vir de mim o peso que condena
Melhor que voemos nossas penas
 Cada um por sim, apenas.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Um golpe de realidade numa escrita Encantada

Não é (só) corujice, mas também uma inquietação que me faz querer que mais pessoas leiam o post que meu irmão escreveu no blog dele sobre o trabalho que ele realiza. É tocante, belo, e faz a gente pensar.

É literalmente a Macieira atirando seus frutos em nossas cabeças, para ver se a gente acorda de uma vez por todas!

Leiam, comentem, reflitam...

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Respostas para inquietações

Eu precisava seguir levando adiante esse vídeo maravilhoso, descoberta da colega blogueira Adri. Ainda mais quando de forma tão simples, diz tudo...

Antes que seja tarde

Tento escrever mas não consigo. Tantas palavras entupidas na garganta. Trancadas entre meus dedos. Tantas que nessas horas às vezes o melhor a fazer é calar. Porque pior do que falar demais ou calar demais é falar qualquer coisa para distrair, desfocar do que realmente ensurdece. Há que se ter coragem de sempre falar a mais pura verdade; aquela que esteja assim pulsando, pedindo passagem, estourando o coração. Enquanto isso, acho que esse vídeo fala um pouco por mim.

video

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Teu armário sem portas


Teu armário deveria ter portas
Pois as roupas que te cobrem
Precisam ser cobertas de mim

Não verei tuas peças expostas
Para não recordar o que cobriam:
O corpo que me acobertava sem fim

Então tornei-me de mim a denúncia
E não quero mais portas no meu armário
Minhas roupas ao vento e eu nua, crua.

Para que eu mesma me cubra, me cobre,
os sentidos recobre e então finalmente
te acoberte, e seja toda e sempre tua.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Instruções para restos de inverno

Não se engane: o inverno não nos deixou
E nem esse resto de frio a mim te mostrou.

Inverno encolhe, recolhe, escolhe.
Primavera expande, renasce, redime.

Não se engane: Primavera só no calendário
Muitos invernos permanecem vivos
em cobertores guardados no armário.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Cortázar de perder o fôlego

TU BOCA

Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.

Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto.

Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio.

Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura.

E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela.

E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.

POEMA

Te amo por cejas, por cabello, te dabato en corredores blanquísimos donde se juegan las fuentes de la luz,

Te discuto a cada nombre, te arranco con delicadeza de cicatriz voy poniéndote en el pelo cenizas de relámapago y cintas que dormían en la lluvia

No quiero que tengas una forma, que seas precisamente lo que viene detrás de tu mano, porque el agua, considera el agua, y los leones cuando se disuelven en el azúcar de la fébula, y los gestos, esa arquitectura del nada, encendiendo sus lámparas a mitad del encuentro.

Todo mañana es la pizarra donde te invento y te dibujo. pronto a borrarte, así no eres, ni tampoco con ese pelo lacio, esa sonrisa. Busco tu suma, el borde de la copa donde le vino es también la luna y el espejo, busco esa línea que hace temblar a un hombre en una galería de museo.


Además te quiero, y hace tiempo y frío.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O dia do perdão

Hoje é dia de Yom Kippur. O dia do perdão. Um dos feriados judaicos mais sagrados, porque significa um dia em que o povo reflete sobre os erros cometidos no último ano. Tradicionalmente é um dia de ponderação, de reflexão, de isolamento. O jejum faz parte desse dia como símbolo da privação dos prazeres em prol de novas atitudes a serem tomadas no próximo ano.

Eu não sou judia fervorosa. Não pratico os rituais e costumes além do mínimo necessário. Sempre achei o dia do perdão algo que vem perdendo seu sentido, pois para mim não é deixando de comer que eu vou "pagar" pelos pecados que cometi. Mas fiquei me perguntando sobre a validade de existir um dia em que as pessoas param com todas as atividades que lhes distraem de si próprias e vão para a sinagoga rezar, refletir, replanejar a vida.

Meu Yom Kippur tem sido longo. Não faço jejum gastronômico mas faço um jejum das bobagens, faço jejum das ilusões, das falsas promessas que sempre me fiz, de relações vazias, de mentiras, de tantos prêmios falsos que já me dei.

Mas a vida não para e não posso jejuar enclausurada no meu quarto. Para isso não há feriado. O jejum tem de ser feito na própria vida. E não há tal coisa como o dia do perdão. Há, sim, o dia em que nos absolvemos de nós próprios, o dia em que paramos de nos auto-flagelar e descobrimos que nossos maiores pecados são contra nós mesmos.

Meu novo ano está prestes a começar.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A cura


Não é mais o teu olho que me sara
Agora o mundo é meu espelho
Não necessito do teu conselho
Porque sou eu quem me ampara

Recolhi as velas ao meu vento
Porque é só fechando meu corpo
abrindo mão do que chegou torto
que posso me acarinhar por dentro.

Sarar não é o mesmo que arder
Porque o que sara nem sempre cura
E não se sabe o quanto a vida é dura
Até viver a nobre lição do perder.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Pequena história de um sinistro

Invisível a si própria em seu próprio tráfego, ela andava desgovernada pela rodovia. A polícia então a para mas constata que era tarde demais. O acidente já havia acontecido há muito tempo: Insulfilm cobria seus olhos.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

RPM

Ele: Ei, me espera um pouquinho!

Ela: Não posso, estou atrasada.

Ele: Atrasada para que?

Ela: Para te resgatar! Tchau!

Ele: Mas eu sempre estive aqui...

(...)

Ele: Sou meio maluco, né? Eu sei que minha mente às vezes vaga por lugares meio insólitos e que sou meio marcado pela vida, mas não sei ser diferente.

Ela: E por que deveria?

Ele: Porque as vezes isso assusta. Sei lá, como se eu vivesse constantemente em uma rotação diferente do resto do mundo.

Ela: Mas eu acompanho a tua velocidade, sei em que mundo tu vives e eu não te perco, mesmo quando tu estás longe de mim. Eu sei o que tu pensas, sempre.

Ele: Eu nunca acreditei nisso, até agora. Mas hoje nem resisto mais. Tu sabes sim e essa tua capacidade de me acompanhar me assusta.

Ela: Então para de correr. Me espera e caminha comigo.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Cantos

Se me encanto
com meu corpo
em desalento
Te convoco
ao encontro
do canto
que eu canto
a cada pranto.
(...)
Encanta comigo?

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Sentido


Antes a visão
era surda
o ouvido, cego
o gosto arranhava
e eu ainda sorria

Agora os sentidos
voltaram aos seu lugares
e o meu sexto me diz:
Renova e cresce

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O enredo mortal

Sou escritora, sou imaginativa e sou poeta sempre que posso. Na minha cabeça cabem sonhos, fantasias e devaneios. Sei que sempre fui pouco realista, que sempre habitei o terreno dos sonhos e que já machuquei quem fez parte de minhas criações.

Eu nunca quis ferir ninguém, nunca quis tornar ninguém principe encantado ou bruxa má. Os personagens são todos partes de mim, são projeções das minhas ilusões. Foi então que caí na realidade e me machuquei feio. Caí na realidade e vi pessoas de verdade ao meu lado. E pessoas de verdade não são como desenhos animados. Não são como o coiote que persegue o Papa-Léguas ou o Tom que persegue o Jerry. Eles não são esmagados, queimados, jogados de abismos e sobrevivem. Não. Pessoas reais morrem. Se machucam, se ferem. E cansam. E desistem.

Sempre fui Papa-Léguas porque corria e escapava. Sempre fui Jerry porque provocava e me entocava. Mas me dei mal.

Porque a vida não é um desenho animado; a vida não é novela. E o enredo que criei para a minha história até aqui não me deu audiência. Pelo contrário. Me enredei em meu próprio enredo e sufoquei. Na verdade eu sei a quem todo esse enredo foi dirigido. Mas nem mesmo ela viu. E eu já paguei caro demais por essas linhas tortas que fui escrevendo, só para tentar provar que sou uma criação animada para não dar certo.

Eu não sou cartoon. Eu sou real. Chega de escapar, chega de correr. Preciso saber quem fica ao meu lado se eu for constante e presente.

Não quero mais enredo nenhum.

Sou livre, real e mortal.

*Trilha sonora do devaneio: "Estrela, estrela" do Vitor Ramil

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Pense e Dance!

Primeira música da trilha sonora do dia!

Há quanto tempo eu não ouvia Barão e há quanto tempo uma música não se encaixava tão perfeitamente para o momento!

Cantei alto no carro, digito ela aqui para dividir!

******
Penso como vai minha vida
Alimento todos os desejos
Exorcizo as minhas fantasias
Todo mundo tem um pouco de medo da vida

Pra que perder tempo desperdiçando emoções
Grilar com pequenas provocações?
Ataco se isso for preciso
Sou eu quem escolho e faço os meus inimigos

Saudações a quem tem coragem
Aos que tão aqui pra qualquer viagem
Não fique esperando a vida passar tão rápido
A felicidade é um estado imaginário

Não penso em tudo que já fiz
E não esqueço de quem um dia amei
Desprezo os dias cinzentos
Eu aproveito pra sonhar enquanto é tempo

Eu rasgo o couro com os dentes
Beijo uma flor sem machucar
As minhas verdades eu invento sem medo
Eu faço de tudo pelos meus desejos

Saudações a quem tem coragem
Aos que tão aqui pra qualquer viagem
Não fique esperando a vida passar tão rápido
A felicidade é um estado imaginário

Pense e dance
Pense
Pense e dance!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Tatuagem

A cena começa comigo, esperando uma amiga para almoçar em uma calçada agitada dessa cidade, com meu passatempo predileto que é observar as pessoas passarem, cheias de brincos, óculos que escondem o rosto e passos perdidos ou achados.

Foi então que olhei o pé de uma mulher, que vestia um scarpin, e na parte de cima do pé, meio para o lado, uma tatuagem com alguma palavra escrita com uma estrelinha em cada lado. Parecia aquela tatuagem da Deborah Secco? Ou então da Carolina Dieckman? Ou então da sei lá quem que se apaixonou por sei-lá-que-outro-quem, mas já apagou com laser. Fiquei pensando nesse lance de tatuagem e logo peguei meu caderninho de devaneios para escrever.

A tatuagem surgiu e propagou-se como algo que vendia a idéia de tornar o corpo algo inédito, algum desenho que tornasse aquele corpo único, com uma marca, um nome ou um desenho que o diferenciaria de tantos outros corpos comuns. Mais do que isso: com um significado para aquela pessoa. Um sentido. Mas, como tudo que nasce com um propósito inicial, isso se subverteu e hoje vemos as mais malucas motivações que levam as pessoas a desenharem-se para a eternidade que o corpo durar.

Mas fiquei pensando que o propósito original já deixou de exisitir há tanto tempo... Porque agora nada mais é original. Desde que a Gisele fez, ter uma estrelinha no pulso já é tão comum quanto ter dois olhos e sobrancelhas. Peraí, mas a idéia não era ser original?

Pois é.

Isso foi o que me levou a pensar que na verdade, pouquíssimas pessoas desejam mesmo ser originais, diferentes. No fundo todo mundo quer ser réplica, quer reproduzir o que já "deu certo" ou o que já está na moda. Me deu uma pena daquele pé, de tantos pulsos, de partes de trás da cintura com o tal "Made in Brazil". Além do mais, fico aqui pensando que necessidade é essa de carregar o nome de alguém que amamos ou então de dizer uma frase que nos faz sentido, escrito na pele. O que interessa é o que está escrito na alma. Isso sim é eterno. Essa tatuagem é que dói para fazer, dá orgulho e quando temos que apagar, por alguma razão, dói muito mais do que qualquer raio laser. O que tatuamos na alma sim é eterno...

Mas não pensem que sou contra a tatuagem. Pelo contrário. Eu também tenho uma. Que tem um significado especial para mim e que sei porque a fiz. É pequena, simples e quem me conhece sabe o significado que tem para mim. Mas as da minha alma, essas também são poucas, as que são eternas. E estão comigo e não me arrependo de nenhuma delas.

E já que o tema parece meio bobo, termino com um bom Chico, que torna tudo profundo e belo sempre...
.:.
Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem

(...)

Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta
Morta de cansaço

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Não sei dizer o que faço aqui

Não sei dizer o que faço aqui

Só sei que venho e volto, bem aqui

Eu sei que congelo quando me afasto

Que derreto se chego perto demais

Não sei a forma de um poema perfeito

e desconheço jeito incólume de amar.

Se chegares e ainda me reconheceres

Avisa a todos que eu nunca fui poeta

Avisa que eu sou teimosa e exagerada

Que sou dramática e mentirosa

Que só tu conhece minhas verdades

e que uma delas é que eu não sou má.

Não sei dizer o que faço aqui

Eu não sei fazer poesia

Eu não sei quais palavras escolher

Só sei que me sinto escrava das letras

quando elas me açoitam por distratá-las

ou quando sabem que as estou usando para

me distanciar do que realmente sinto.

Me digam vocês, letras, quem sou

porque eu simplesmente,

Não sei dizer o que faço aqui.


***

Na verdade não sei o que se passa comigo hoje. Um ataque verborrágico informático bloguístico. Vontade de escrever sem parar. Uma vontade de escrever algo brilhante. Sabe aqueles textos antigos que tu encontra e depois fica pensando: "Puxa, eu mesma que escrevi isso? Adorei!". Pois é. Faz tempo que isso não acontece comigo. Ando meio sem inspiração, me sentindo pouco poeta, pouca prosa, pouca rima, pouca coisa.

Acho que são momentos. Foi uma semana cheia de chuva, uma semana de enchentes emocionais. Não gosto de ser reflexiva sempre. O coração às vezes me escapa e sai correndo por aí, desvairado e indomável, querendo me engolir.

Eu amo escrever, só não sei se a escrita me ama. Mas quem disse que o melhor do amor é ser correspondida? Óbvio que é bem melhor, mas eu adoro poder amar assim tanto. Amar só por amar. Adoro saber que eu aprendi muito nos últimos tempos. Tanto que eu queria começar tudo de novo. Então que eu possa amar hoje, que eu possa amar os ontens e esperar pelos amanhãs!

Eu creio para ver, sim!

Hoje Juan Gelman fala por mim...

O jogo que andamos

Se me dessem a escolher, escolheria
esta saúde de saber que estamos doentes,
esta felicidade de andarmos tão infelizes.
Se me dessem a escolher, escolheria
esta inocência de não ser um inocente,
esta pureza em que passo por impuro.
Se me dessem a escolher, escolheria
este amor com que odeio,
esta esperança que come pães desesperados.
Aqui acontece, senhores, que jogo com a morte.


(recomendo muito o livro de poesias dele "Amor que serena, termina?" Lindo demais!)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

precisa-mente

Precisamente
quando tudo parece estável
Os ventos mudam a direção
Precisa a mente, então,
de uma força tremenda
para frear o que as velas desejam
Elas queimam e fazem força
E a mente, precisa,
precisa fugir
daquilo que o corpo mente
precisa que o coração aquiete
precisa que não lembre
que a precisão do sentimento
Faz qualquer vento parecer brisa
Quando é de nossa força que se trata.
É então a pressa do nosso coração
que faz o amor ser tempestade,
Precisamente.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Faróis

Eu queria ter faróis cortantes
para os meus dias de chuva.

Certificar-me de que
não passarei despercebida
na infinita via dos instantes.

Essa é a real proteção;
Eu não temo os acidentes
O que temo é a solidão.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Supergrass e a vida adulta

Indo para o trabalho ouvindo o cd dessa banda que eu recomendo muito, Supergrass, debaixo de uma super chuva que não deixa de cair nessa cidade, fiquei pensando nas responsabilidades da vida adulta. Quantas vezes a gente não sente vontade de pedir que tudo pare, e que repentinamente nossas tarefas, compromissos e atividades voltem a ser os temas do colégio, as famosas e temidas semanas de provas, brigas com a melhor amiga, os guris chatos, os dramas pelos amores platônicos não correspondidos, ter que chegar em casa morrendo de fome mas ter que tirar o uniforme antes de sentar na mesa, etc.

Hoje as coisas mudaram. Ainda assim, temos que usar outros tipos de uniformes. Temos que ser uniformes em tantas coisas. Só temos que ser diferentes e extraordinários quando é algo dificil, algo que exige criatividade, grandes idéias, para constantemente termos que ser diferentes, vencer, nos destacar. E cansa. Nossa, como cansa.

Ao mesmo tempo, ver-se com essa vida de adulta e poder dar conta dela, cumprir tarefas, respeitar os prazos, ser digna de confiança faz um bem tão grande. A grande questão é que para isso, a gente tem que estar bem por dentro, tem que estar com nossos leões domados, nem que seja apenas por um tempo. Temos que conhecer nossos calcanhares de Aquiles, que são tantos. É trabalhoso ser adulta e querer se compreender.

Mas ter a sensação de dever cumprido, de que se faz o que se escolheu e que se faz isso bem feito, é bom demais. As recompensas de sermos adultos são boas e fazem todas as dificuldades valerem a pena. A independência, a liberdade (mesmo que nem sempre e não completamente), o futuro.

É isso. Boa sorte a todos nós nessa vida adulta. Que pode até ser dificil mesmo, mas fica bem menos complexa com uma boa trilha sonora. Então, bora ouvir Supergrass! O resto a gente vai dando um jeito!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A primeira pessoa

Se eu falar de mim
na terceira pessoa
posso eu falar
como se fosse outra?

Essa tal que não existe
pode ser quem eu pintar
Linda, esperta ou tola
Posso eu também dizer
que sou um pouco louca?

Eu não sou aquela outra
nem quero que outra seja eu
Mas não posso deixar
de sempre me indagar:

Se eu me mostrar
em primeira pessoa
alguém de verdade
poderá me amar?

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

desabafogado


Minha criatividade sumiu
Escorreu com a água da chuva.
Fiquei cinza como o céu
Minha boca já não faz meia lua

O que houve contigo, alegria?
Era boba, juvenil ou pueril?
Desabitas meu rosto
e me trazes o cansaço

Preciso correr e rir
Preciso inventar, escrever
Estou sedenta de profundidade
Estou rasa, sem ar
Como peixe fora d'água
lutando para respirar.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Quem quer ser Belchior?

Se você sumir sem avisar a ninguém,
quem é que vai perceber sua falta?
E quanto tempo depois?

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Primavera


O calor desnuda minhas idéias
Suo vontades e desafios
Aqueço lembranças,
desvelo expectativas
Quero pétalas, gelo e suor
Sei que jamais serei só
porque já sou inteira.
Floresci.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Motor

A rapidez da vida
Só desacelera meus passos.

Sigo lenta nas certezas
Rápida frente a dúvidas

Eu engasgo com o belo
Só para poder chorar

Eu apago em ventanias
Só para ouvir o assobio

Sou suave nas curvas
Só para sentir meu corpo

Derrapo quando te vejo
Só para sentir o arrepio

Não tenho mapas nem destinos
Não tenho estradas, pavimentos

Sou terra, areia e chão.
É uma audácia dirigir a vida

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Retorno e(terno)

Tudo o que eterno é terno.
O Infinito é para sempre.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A dificuldade de se encontrar e as pequenas mentiras que as pessoas contam

Desculpe o incômodo, meu amor, mas a minha campainha deve estar estragada. Não toca mais. Por isso é que você deve estar se perguntando a razão pela qual vem até minha porta dia após dia, toca, e som algum é emitido por ela. Não que eu esteja preocupada ou querendo voltar a falar com você.

Caso você esteja triste com a dificuldade de me encontrar, meu telefone foi cortado somente para receber ligações suas, não entendo o que se passa. Meu computador não recebe suas mensagens, meu carteiro se recusa a entregar cartas que tenham seu nome no remetente. As outras todas tem chegado. E não que eu fique cuidando, pois para mim é indiferente receber algo que contenha seu nome. Nem percebo a falta de sua presença.

Mas, por favor, não insista pois isso só lhe trará mais decepção. Não que eu esteja preocupada com seus sentimentos pois realmente estou me sentindo muito bem longe de você.

Não é por não querer-te bem, e sei que não é porque não me desejas mais. Simplesmente a você não é permitido mais o contato comigo por alguma razão que não nos compete. E não é preciso que se desculpe. Eu entendo que não é escolha sua. Sei que você adoraria me ter em seus braços de novo. Não que eu fique pensando nisso ou então pensando se em tal instante você estaria ouvindo a mesma canção do que eu. De forma alguma.

Mas, por favor, não insista em sua procura pois isso só deve estar lhe fazendo sofrer.

Eu? Eu não sofro. Eu fico aqui só a imaginar você sem mim. Não que eu esteja sentindo sua falta ou não suportando ficar sem você. Não se trata disso.

Porque eu estou ótima, escrevendo histórias de ficção sobre a dificuldade de se encontrar e as pequenas mentiras que as pessoas contam.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Férias

Blog, corpo e mente dessa que vos fala fechados para balanço!
Mas antes de sair, uma frase do Carpinejar para me acompanhar e para deixar por aqui:
"Quem não tem peso não voa"

Fui ali voar e já volto!

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A hora certa


Quando é a hora certa de levantar vôo?

Quando é a hora certa de perceber que alguém mexeu no seu queijo?

Quando é a hora certa de sair de cena por cima?

Quando é a hora certa de voar em carreira solo?

Quando é a hora certa de sabermos que estamos preparados?

Quando é a hora certa de saber que a hora é certa?

Quando?

Minha cabeça fervilha de idéias, projetos e sonhos.

Talvez a hora certa seja exatamente AGORA.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Fôlego

nao quero apagar o que ja fui nao quero esquecer do que ardeu sinto falta das pontuacoes dos sinais do que da limites nao sei onde as linhas comecam e terminam nao entendo as palavras as vezes elas viram meros desenhos graficos disformes que nao me mostram imagem alguma sou alegre e triste plena e vazia sou assim inconstante quieta calma e trovejante nao consigo me doutrinar nem explicar em linhas cansei de ser didatica sou disforme e iletrada apaixonada sou artista sou doenca sou saude da alegria as lagrimas as imagens na retina ficam gravadas e minha mente busca novas nascer do sol pegadas na praia vestigios do que ja fui e de quem passou nao quero reedicao nao quero deixar de acreditar na vida sou amor novo em coracao velho sou uma antiguidade em promocao nova colecao passada a limpo sei do que amo e do que nao posso sei do impossivel e do evitado sei do escandalo e do grito e so por isso posso amar de novo

Ponto.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Últimos sonhos de agora

Eu, aqui com meus botões, pensando: se semana que vem eu fosse morrer, com qual grande acontecimento eu gostaria de encerrar minha vida? E não estou falando aqui em estar rodeado pelas pessoas que amo, estar em paz, ver o sol se pôr, etc. Isso já é implícito. Estou falando de algo mais real, concreto, objetivo.

Você tem algo com que sonha e nunca pôde realizar e que gostaria de fazer antes de morrer?

Pode ser dirigir um BMW conversível a 200km/h, pode ser escalar o Everest, pode ser assistir a um show do seu cantor preferido; Ou então coisas banais: tocar violino, pintar uma tela, saltar de bungee jump, reencontrar alguém, se reconciliar com alguém, plantar uma árvore...

Hoje, vendo o que vejo, creio que podemos até não chegar nunca a concretizar um grande sonho, mas sem ele já podemos até nos considerar mortos antes mesmo do último suspiro.

Porque não querer nada é pior do que ter tudo e não saber.
Porque sonhar, mesmo sem ter, é melhor do que ter sem querer.

A propósito 1: eu tenho sonhos desse tipo, que, por agora, me movem: quero participar de uma peça de teatro, quero ver um livro meu publicado, quero poder dar à luz, quero conhecer Roma, a Torre Eifel iluminada à noite, quero assistir a um show do Keane, ter a coragem de voar de asa delta, conhecer o Andre Comte-Sponville e outros escritores que amo.

A propósito 2: Mas o meu maior sonho dessa semana, que estou podendo realizar, é poder ajudar a realizar o sonho de outra pessoa. Mas ele seria mais completo ainda se eu pudesse ver essa pessoa realizando o seu grande sonho e estar lá no momento, vendo a carinha dela de plenitude. Não tem maior satisfação do que essa.

Mas esse sonho, de ver pessoas buscando pelos seus, é um dos que eu tenho o privilégio de realizar todos os dias.

Amém.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Coração na boca

Me espera que eu chego
e acalmo nosso dia no sorriso

Me espero e tu chegas
trazendo nossa força nas mãos

A casa, então, nos espera
como se espera o amante

Flores, aromas e poemas
Para uma vida nova
Feliz e forte

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Os pés do meu pai

Eu sou daquelas que não fico mais sentimental em dia dos pais, dia das crianças, Natal ou dia da avó. Para mim essas são datas comerciais apenas e que muitas vezes servem para que aliviemos nossas culpas presenteando tal pessoa no "seu" dia, mesmo que nos outros todos nem a valorizemos tanto.

Mas vendo os comerciais e as propagandas do dia dos pais e vendo o meu pai mais especificamente, lembrei de algo que eu sempre amei fazer com ele: ficar sobre os pés dele enquanto ele caminhava. Ser conduzida por ele. Alheio a qualquer caráter edípico obviamente incluído nesse prazer, trago essa sensação para a pessoa que me tornei. Andar sobre os pés do meu pai representava estar amparada, ter uma base ao longo do caminho. Estar protegida e ainda ter aquela privilegiada sensação de não ter a responsabilidade de ter de escolher o próprio caminho. Era o pai quem dizia por onde era melhor seguir. Mesmo quando nem ele mesmo tinha certeza. Mas disso eu não sabia e nem me interessava.

Hoje sou eu quem dou cada passo do meu caminho, não caminho sobre os pés de ninguém. Tropeço, erro, mudo a direção, dou alguns passos para trás de vez em quando, mas não fico no mesmo lugar. Ainda assim, existe um pé invisível por debaixo do meu. Aquele pé que me deu suporte, que suportou os primeiros impactos do caminho por mim e que me deu o amortecimento para que eu, hoje, possa estar encontrando meu próprio caminho.

O melhor de tudo é que ele sabe disso todos os dias e eu não preciso dar um grande presente e um cartão para ele no dia 9 de agosto. Ele recebe meu agradecimento no meu olhar diariamente, e em poder, quem sabe, se orgulhar de ter ajudado a me fazer quem eu sou hoje. Tenho orgulho de dizer que me acho parecida com ele no caráter, na determinação, no prazer em amar o que eu faço, no prazer de ser gentil e amável com as pessoas ao meu redor, independente da posição que ocupam.

Tenho orgulho de ser filha do meu pai e agradeço pelos pés dele.

Agradeço com meu caminhar e sei que ainda vou longe, muito longe, mas sempre acompanhada dele.

Para sempre.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Blindness


E quando a perspectiva de felicidade te encarar, para onde estarão mirando teus olhos?

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Tears DON'T dry on their own


Uma vez eu ouvi que quando a gente está MUITO triste ou MUITO feliz não consegue escrever no blog; Que falta inspiração. Ontem fiquei preocupada com isso. Eu busquei, pensei, refleti, viajei e ainda assim não consegui achar nenhum tema interessante o suficiente para postar aqui. Começava e apagava, pensava e desistia.

Fazendo uma auto-análise sobre essa falta de assunto pensei na possível razão disso, que então no meu caso e nessa teoria, seria o fato de estar MUITO feliz. Mas não posso aceitar isso. Porque eu amo escrever e amo ainda mais estar MUITO feliz. O que fazer? Estragar minha felicidade para conseguir inspiração? Não, não. Talvez então buscar inspiração na própria felicidade.

Então fiquei pensando nesse meu momento feliz, pleno, e tentando ver o que eu fiz para chegar até aqui. Porque sorte não foi. Destino, muito menos. Eu lutei para conquistar essa felicidade. Eu busquei estar sempre me vasculhando, me conhecendo, me descobrindo para saber o que realmente eu preciso e quem realmente eu preciso nessa vida. Eu descobri e não aceitei menos do que isso. Eu descobri e não tive medo de enxergar minhas partes feias para poder consertá-las. Eu descobri e não fechei os olhos.

Então agora vejo que as lágrimas da gente não secam por si próprias. Requer muito esforço, auto-conhecimento e auto-confiança. E, claro, confiança na vida nunca é demais. Confiança de que quando a felicidade finalmente bater à nossa porta, a gente possa lembrar que ela não apareceu por acaso. A gente a convidou para entrar.

Entra, felicidade. Entra porque eu te chamei, te busquei e te re-conheci.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Desejos de uma sexta-feira qualquer

Que o infinito traga a possibilidade da inconstância

Que o vento desmanche tudo que é concreto

Que possamos estar certos que certeza não há

Além da vontade de ser mais

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Tu y Jo

Ele notou
Ela sorriu

Ela de cabelos molhados
Ele de ressaca

Ela desentendida
Ele sabendo tudo

Os dois acharam que não.
Escoriações antigas faziam neblina

Ele atraído
Ela assustada

Ele encantado
Ela apaixonada

Eles querendo futuro
E os passados levados embora

E de tantos presentes
Tornaram-se somente deles.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Decantada

Procuro poemas ou canções
Que falem por mim
Que me ilustrem e metaforizem.

Leio Clarices, Caios e Pessoas.
São gênios, mas não me leem toda.
Precisava de algum poeta que dissesse:
"Atenção a todos, essa é a Luciane"
Mas não há.

Eles escrevem coisas lindas, esses letrados.
Palavras escolhidas com esmero, rimas ricas,
sentidos profundos, canções.
Mas não me conhecem de verdade.

Então hoje sou eu a minha poeta.
Escrevo meus não-poemas e digo:

Que a vida tem me sido generosa,
na dose certa de dores e paixões,
temores e ousadias, aventuras e tédios.

Que sou essa tênue lembrança do que já fui,
para não me perder no que venho me tornando.
Esse ser novo, maciço, compacto,
mas também poroso, sedento, aberto.

Que sou dura e flexível, contente e dramática.
E ninguém consegue poetizar quem sou
a não ser eu mesma.

Que sou uma adega de descobertas caladas,
Mas descobri um leitor, um degustador
Um aliado que me saboreia com cuidado,
deixando-me respirar, como faz com um bom vinho.
Me combinando com maestria a seus sabores.

Digo que a minha poesia é assim, sem sentido,
desconjuntada, sem rima nem platéia.
E essa sou apenas eu. Pronta a ser vivida.

Que sou lenta para não perder nada.
Mas veloz para que a trilha não acabe logo.
E ainda há muito a percorrer.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Apego

Já falei aqui sobre vôos, sobre quedas, abandonos e recomeços... Hoje, um dia antes de completar meus 31 anos, penso no desapego. Ou melhor, no apego. Nesses tempos de relações rápidas e frustrações lentas, de descréditos imediatos e insatifações permanentes, parece cada vez mais inédito falar sobre vínculos. Sobre laços e a capacidade de ligação e entrega.

O que é que de fato nos liga a alguém, o que nos conecta, nos faz criar com determinadas pessoas canais que se tornam exclusivos e insubstituiveis?

Esse fim de semana, estando frente à natureza em sua forma mais sublime e natural, me botei a pensar em como somos pequenos diante do mundo, e, paradoxalmente, como nos julgamos deuses. Esse equilíbrio é tênue. Não podemos esquecer que somos apenas mais um, mas ao mesmo tempo precisamos nos sentir únicos, especiais, insubstituíveis. Nesse panorama, muito do que ainda nos define é nosso trabalho. O que eu faço, quem eu sou, do que me fantasio durante a semana "útil"; do que me escondo ou me protejo. Então, quando nos despimos desses papéis, aparece quem realmente somos, as relações que realmente construímos. Nossos vínculos. Você sabe o que sobra quando se despe do que acredita que seja? Você sabe quem está ao seu lado?

Não somos mais os casacos que vestimos, somos o frio.
Não somos mais nossa profissão, somos formados pelo que sonhamos.
Não somos mais acompanhados por quem nos escolhe, mas por quem escolhemos também.
Não somos mais paisagem de uma vida, somos a própria vida.
Não somos mais os papéis determinados, somos pedaços de quem admiramos.

Eu custei a aprender a construir vínculos, a me entregar a eles, a correr o risco de passar o frio para que o casaco não me limite, não me sufoque. Eu posso até tremer, quem sabe até congelar, mas o que me aquece é a ousadia de ver a paisagem e ter mobilidade para tentar ser feliz.

Sim, nós somos apenas mais um ser minúsculo no mundo, mas nos tornamos gigantes quando somos o mundo para alguém.