quarta-feira, 8 de abril de 2009

A entrevista parte II: O amor mais puro que há


Luciane, como fazes para te suportar?

Ah, essa pergunta eu me faço sempre. E na maioria das vezes não sei exatamente como eu me suporto. Só sei que na medida em que a gente vai ficando mais “analisada” consegue lidar melhor com os próprios fantasmas. Consegue encarar as nossas partes mais feias sem fugir delas ou então sem tentar achar que elas somem pelo simples fato de serem vistas. É um processo demorado. E o grande lance é tolerar que elas existem, que elas estão ali, à espreita. Mas quando a gente já conhece elas, as nossas neuroses, nossos pontos nevrálgicos inconscientes que nos levam a tomar repetidas atitudes que fazem mal aos outros e muito mais a nos mesmos, a gente fica mais alerta. Dá um cansaço enorme, já vou avisando. Eu me canso em minha vigília.. Porque já fiz muita merda... E cansei de me dar desculpas e de pedir desculpas. Não quero mais repetir erros. Errar eu sei que sempre vou de uma maneira ou de outra, mas então que sejam erros novos, erros sadios, erros honestos. Mas lidar com essa tendência de errar, essa tendência de repetir as merdas e poder se aguentar, se olhar e se frear é um exercício constante e que eu confio que pode dar certo.
Por isso eu digo que eu venho me suportando bem. Tenho conseguido. Não sem penar. Não sem pesar. Porque fazer as coisas do jeito antigo parecia mais confortável. Mas eu já estava começando a estragar demais a minha vida. E agora chega. Agora eu começo a sentir que se eu me suportar talvez eu encontre um outro que me suporte também e eu possa aprender a suportar o outro em seus defeitos e sofrimentos. Acho que é mais ou menos isso...

Falas em suportar o outro. Achas que isso é amor?
Ai, não sei. Por que tínhamos que entrar nesse tema? Eu acho que ainda estou descobrindo o que é o amor verdadeiro. Amar alguém não é estar sempre querendo ficar com essa pessoa. É querer ver a pessoa livre, alçando vôos, para voltar ainda mais bela para embelezar o meu mundo. E eu preciso disso, que o outro me alimente de riquezas internas, de devaneios e sonhos. Nunca fui possessiva. Mas admito também que já fui descuidada. E pouco exigente. Tão pouco que isso já foi encarado como despreocupação ou menos valia. Talvez porque eu tenha medo de contar demais com o outro. Talvez porque eu não tenha conseguido compreender que quando sou amada o outro se interessa por mim, se preocupa comigo. Se eu não ligo, se eu digo que fui a algum lugar e fui a outro. Mas a linha é tão tênue que as vezes isso pode ser confundido com controle. E eu acho que durante muito tempo precisava da sensação de ser controlada, muito por meus descontroles internos, e eu suscitava isso no outro. Mas depois isso me dava uma raiva tremenda, óbvio. Mas eu pedi por isso! Não parece maluco? A questão é que esse controle que eu sempre precisei nunca tinha que ser dever de um homem. Não cabe a nenhum parceiro assumir esse papel. Isso é uma construção interna, que só agora venho percebendo e fazendo. Eu é quem preciso me cuidar. E se eu transmitir ao outro que tenho essa capacidade posso ser digna de confiança, porque vou me cuidar muito bem, e conseqüentemente posso cuidar bem de um amor dentro de mim, e não esquece-lo e muito menos maltrata-lo, como já tanto fiz.
É, dói ver que não sou sempre boa. Mas talvez vendo minhas fraquezas e até minha maldade eu possa permanecer verdadeira e leal.

Mas então como saber quando se está amando alguém?
Acho que isso não se sabe. Isso se sente e se admite ou não. Fujo um pouco desse sentir porque as vezes julgo que tenho um “amar” idealizado na minha cabeça. Um companheiro idealizado. E isso não existe. Para mim, que lido com vida e morte diariamente, tenho percebido que amar é quando eu sinto que estaria ao lado dessa pessoa até ela morrer, custe o que custar, ou então que se tudo desse errado e se eu recebesse uma notícia de uma doença fatal, além da minha família nuclear, essa pessoa seria quem eu queria que permanecesse ao meu lado até meu último suspiro. E não poderia ser qualquer um. Tem que ser quem me escute, quem aperte minha mão, me olhe no olho e não sejam nem mais necessárias tantas palavras. Alguém que me leia. Para que seja meu obituário eterno.
A morte traz consigo o amor mais puro que há.

13 comentários:

Anônimo disse...

Olha menina, tá tudo cada dia melhor... Parabéns e segue em frente. Se continuares assim,bem Luciane, teu hoje já sorri pro teu amanhã.

Um beijo da, Ana G.

Luciane disse...

Que bom que tu anda presente por aqui... Obrigada pelo carinho que tu és. Beijo!

Talita Prates disse...

Obrigada, Luciane!
Volta sempre, serás sempre benvinda!
Que bom que gostou... Leminski é fodástico**! rs
Bjão!
Paz.

Nadia lopes disse...

Lu, que lindo isso, nunca tinha pensando assim tão claramente o quanto a morte poderia dar a real dimensão de um aamor, acho que tu tocou no ponto, em vários pontos aliás...concordo com a Ana G, teu hoje dá mostras claras do quão forte e melhor teu amanhã, com tanta clareza.
beijo parabens!

Luciane disse...

Fodástico é ótimo! :) Que boas trocas de literatura e vida possam ser feitas por nós então!
Bjo pra ti!
***
Obrigada Dona Pandorga! Acho que tenho andado mais aberta aos meus fluxos de pensamento...me exponho, me mostro, mas me descubro também. Beijos!

Marilu disse...

Lu aquela salada de fruta te fez muito bem! Disse tudo :)
Parabéns!
Bjo,

Luciane disse...

Fez bem sim...refletir tem me feito bem. Aliás, viver faz bem! Um beijão!

fale com ela disse...

Gostei da proposta do exercício. Quem sabe eu tenha a coragem necessária para arriscar! Muito pertinentes tuas perguntas e muito profundas e verdadeiras tuas respostas. Gostei bastante. Medos, tentativas, recomeços, vontade de acertar, auto-conhecimento... um processo lento e doloroso... mas bonito e necessário, também... acho que a vida é isso, né?!

CeciLia disse...

Minha querida

que entrevista corajosa, essa!

Bom te ler outra vez. adorei. Quero ler mais.

Beijo e saudade

Cecilia

Luciane disse...

Ah, que visita mais linda... Saudades! Café poético qualquer dia? Beijos e amei te ler aqui!

pensar disse...

Lu.
Que otimo.Adorei o desafio, mas ainda nao consegui publica-lo, gosto de poesia no meu blog.Mas talvez...
Acho interessante esse tipo de entrevista q por mais q nao se saiba, temos a resposta e bolamos a pergunta.
Bjs

Luciane disse...

Vale muito o desafio, Mari. Mas sabe que por mais que sejamos nós quem criamos as perguntas chega um determinado momento em que elas vão surgindo automaticamente, despudoradamente, sem a gente premeditar ou planejar. Aí é que a coisa fica boa... e perigosa!
Valeu, guria! E te arrisca que vale a pena! Beijos!

Renata de Aragão Lopes disse...

"Alguém que me leia. Para que seja meu obituário eterno. A morte traz consigo o amor mais puro que há."

Penso de forma muito parecida.
Quando criança, dizia que, apenas quando morresse, saberia exatamente quem me ama de verdade. Eu voltaria do além pra conferir de quem seriam as lágrimas realmente sinceras. rs

Ainda não pus a ideia em versos. Quem sabe...