terça-feira, 23 de junho de 2009

Sublimando paixões


Assisti ao filme "Modigliani - Paixão pela vida" e quem se apaixonou fui eu. Pela história dele e pela forma em que é retratada. Para não fugir à regra, Amedeo Modigliani era um artista, como define a sinopse, "inspirado pelo amor e consumido pela obsessão". E além de tudo, que viveu uma linda história de amor.

A cena que mais me chamou a atenção foi uma em que ele e outros pintores famosos, entre eles seu inimigo número 1, o então já famoso Pablo Picasso, estão pintando suas obras para concorrerem a um concurso. A música rola e as cenas vão cortando,de um artista a outro, mostrando a paixão de cada um pela arte em sua atividade. Mas aí é que mora a diferença entre quem vive da arte e quem vive na arte. Modigliani vivia imerso em arte. E, nesse caso, isso não é uma exaltação, ao contrário do que possa parecer. Ninguém suporta viver somente na arte. Porque a arte está a serviço da vida e não pode ser dela refém. Modigliani era um refém dela.

Essa cena é linda porque, ao meu ver, demonstra justamente essa relação doentia dele com a arte. A arte é uma sublimação. Sublimar é uma defesa psíquica que temos, um "lugar" onde canalizamos nossos impulsos mais intensos para que esses possam ser expressos, mas de uma maneira socialmente aceita. Então, supostamente, é no objeto de nossa sublimação que podemos expressar o que necessitamos, para que na vida cotidiana possamos estar "adaptados", no sentido saudável dessa palavra, não conformista.

Então, nessa cena, vemos todos os pintores enlouquecidos, pintando, quebrando pincéis, bebendo desenfreadamente, descabelados, irados, absortos, extasiados. Ali estavam expressando seus impulsos e paixões. Modigliani não. Nesse momento ele estava focado, concentrado. Sereno e preciso. Justamente ao contrário do outros, não era na arte mas sim na vida que ele colocava suas paixões e seus mais ferozes impulsos. Ele bebia ininterruptamente, fumava descontroladamente, cantava, dançava, não conseguia manter a menor regra em sua vida cotidiana. Gastava sem controle, vivia em dívidas. Ele não conseguia sublimar isso na pintura, como os outros. Vivia os impulsos à flor da pele, diariamente. E, infelizmente, ninguém consegue viver assim. Modigliani sucumbiu à sua própria liberdade.

Precisamos sublimar para sobreviver porque a vida não comporta nossos impulsos mais primitivos. Para isso sublimamos. É uma dura lição essa que a vida adulta nos dá: de abrir mão da satisfação imediata de nossos desejos. Precisamos abdicar disso, entrar no princípio da realidade, mas não sem a necessidade desse espaço de alívio, de escape. E as artes se prestam muito bem a essa função: a música, a literatura, a pintura, a dança, etc.

Atualmente, na era virtual, nossas sublimações são também outras. Blogar é uma delas. E é por isso que eu estou aqui escrevendo. E é também por isso que você está aqui agora, me lendo.

5 comentários:

Marilu disse...

Muitooooo bom o tópico!
Adorei a dica do filme, vai pra listinha :)

Sublimar ;) isso aí, continue nos presenteando com teus post.
Ler blogs com contéudo é tbem uma exclente forma de sublimação!
Bjo queridona!

Luciane disse...

Que bom que tu gostou, Marilu!! Eu tava começando a achar que eu tinha exagerado na dose "psi" do post, porque ninguém comentava nada por aqui... Obrigada pelo carinho de sempre! Beijão!

Renata de Aragão Lopes disse...

Subli[a]mando...

pensar disse...

Lu,
A realidade muitas vezes nos da tapas ( e muitas vezes eles sao completamente necessarios).Hoje teu post me deu uma dica de filme e uma acordada.
Obrigado
Bjs Mari

Luciane disse...

Amando muito, Re. A vida, as pessoas, os desafios... Sempre!
***
Que bom Mari, poder transformar um pouquinho a vida de alguém, dando essa "acordada". Então, bom dia!!