segunda-feira, 15 de junho de 2009

Canibal

Vou devorá-la de maneira sutil, começando pelos cabelos. São castanhos, nem enrolados nem lisos. Aperitivos salgados e compridos, fios de idéias e eletricidades. Eu vou comê-la devagar, pedaço a pedaço, sentindo a carne por entre meus dentes. Hei de roê-la até os ossos.

Antes porém, quero lamber sua pele até sentir os arrepios, que lhe tornarão áspera, difícil de deslizar minha língua. Vou regá-la, então, com vinho e literatura, poesias e suas músicas preferidas, para que seu corpo dance, e seu ritmo acelere e eu possa sentir o coração pulsando em seu peito antes de dissecá-lo. Vou rasgá-lo e descobrir o que mora ali dentro.

Quero sugar suas pálpebras e dissecar o gosto de cada uma das lágrimas por ela ainda não pranteadas. Vou me deter em seu pescoço, sentir seu aroma antes de engolir sua cabeça por inteiro e regurgitar seus devaneios mais loucos, para que se propaguem com o vento e descobrir o que resta então dessa mulher.

Vou digerí-la aos poucos. Mal-passada, ainda crua. Algumas partes serão mais duras, com suas tensões e sobrancelhas franzidas. Outras partes carameladas, adocicadas. Seus dedos deixarei para o final; beijarei um a um, para que suas digitais fiquem eternizadas em meus lábios e cada nova palavra que eu repita traga consigo a voz e a vida dela, com seus códigos indecifráveis.

Vou mastigá-la e acabar com sua matéria física para ver o que sobra dessa alma, para ver o que resta de som e gosto dessa mulher que aniversaria temores e sorrisos. Que usa as palavras e é usada pela vida. Mas que só vive porque eu ainda consinto.

11 comentários:

pensar disse...

Lu,

Puta merda, que texto maravilhoso!!!!
Amei muito profundo e tocante, simplesmente sem palavras, se perde ate a compostura e me foi necessario usar palavroes para expressar.


Quem sabe um livro?
Bjs

Sick Boy disse...

Ai que medo...ai que fome.

Daniel disse...

canibal faminto de paixão também se alimenta de poesias e textos como esse...

Nádia Lopes disse...

que liiiiiiiiiiiindo!
parabens- beijo

Luciane disse...

Oi Mari! Poxa, que bom que tu curtiu assim. Ele saiu meio de repente, do nada... E um livro? Bah, quem sabe um dia...ainda tem muito chão até lá! Beijo e obrigada!
***
São as fomes de viver!
***
Valeu Nádia! Obrigada mesmo. Beijo grandão!!

Wania disse...

Lu, às vezes as palavras nos escrevem! Elas vão pedindo para sair...
Nunca devemos sufocá-las!
Este texto teve força sufuciente para isso!

Bjão e boa semana!

Luciane disse...

Valeu Wania. Tem coisas que precisam mesmo ser ditas, ou escritas. Deixo sair. Bjão!

Lubi disse...

que boas surpresas você no meu blog e vir aqui, ler um texto assim, visceral.

que delícia.

um beijo.

Henrique Crespo disse...

Quem seria essa mulher? Só uma pergunta lançada ao ar

Gostei muito da prosa poética.

Luciane disse...

Que bom, Lubi! Bem-vinda aqui também! Beijo!
***
Oi Rick! Que bom que tu gostou. Mas essas coisas não se explicam mesmo, né? Tem que ficar lançada ao ar como tu disse. Cada um dos personagens vai ser quem o leitor achar ou precisar que seja (Me esquivei bem dessa, né?) :P Bjo!

Denise disse...

Putz..........lindissimo de uma volupia de fazer perder o folego

Volto!

Denise