segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A função mix

Ela nao sabia que a vida sempre teve a mesma função mix da câmera Lomo que usava. A função mix coloca, em uma mesma imagem, cenas de "clicks" distintos, como se estivessem sempre ali, integrados. Ela, que nunca havia aproveitado o seu mix como poderia. Ela, que passara a vida tentando distinguir cada imagem, separar eventos, pessoas, separar a razão da emoção, o lógico do irracional, o amor da dor, via-se então misturando cenas e sensações em seu olho diafragmático.

Não havia mais como separar sua história nem seu corpo de sua vida. Ela agora era uma, íntegra, inteira e imperfeita. A fotógrafa de sua própria história.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Quando a Independência é o melhor caminho para regressar


We shall never cease from exploration
And the end of all our exploring
Will be to arrive where we started
And know the place for the first time.

T. S. Eliot (1888 - 1965)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Odeio quem não sabe chamar elevadores

O pequeno painel eletrônico acima da porta indica que o elevador ainda está a muitos andares de chegar até mim. A porta fechada e eu ali o esperando. Outra pessoa então se aproxima, eu a olho por um milésimo de segundo e sorrio muito discretamente. Cansei de me emprestar assim por pouco. Sorrir não é mais tão simples, não é apenas mostrar os dentes. Sorrir hoje carrega um esforço de erguer os cantos da boca repuxados por uma esperança que ultimamente tem me faltado.

Eu não quero mais olhar para a pessoa que aguarda pelo elevador ao meu lado. Odeio pessoas que não sabem chamar o elevador: se querem subir e o elevador está andares acima, apertam o botão para ele descer. Pessoas estúpidas que acham que podem mandar o elevador descer até elas. Devíamos tratar elevadores e pessoas do mesmo jeito. Sinalizamos o que esperamos deles. E então que ele venha até nós. Não posso mandar que alguém desca ou suba até mim antes de dizer o que vou fazer com esse alguém. Odeio quem não sabe chamar elevadores. Odeio quem não sabe chamar por mim. Odeio o fato de pessoas não serem tão simples como elevadores e, ainda assim, até os elevadores parecem tão difíceis para tantas pessoas.

Quando a porta finalmente abre, entro e dou uma rápida olhada para minha imagem no espelho. Pareço cansada. Olheiras disfarçadas pela base e pelo pó, mas não disfarçadas pelo brilho dos meus olhos que instantes atrás se apagou. Não sei se foi o peso do dia, se foi a expectativa ainda não alcançada ou o café morno e fraco da lancheeria da empresa. O rímel parece estar ali tentando erguer meus cílios com a mesma força que tive que fazer para levantar da cama nessa manhã. Olho para mim mesma no espelho como quem cumprimenta um conhecido distante, com um mero levantar de sobrancelha.

A pessoa me acompanha, entra e permanece ao meu lado. Estamos indo ao mesmo andar. Descendo. "Térreo, por favor", ela diz. Não sou ascensorista e vê se presta atenção. Eu já tinha apertado no térreo, não viu a luzinha do "P" acesa? Essas palavras só gritaram na minha mente, é claro. O silêncio desceu conosco do 7° andar ao térreo. E aliás, por que o térreo é representado pela letra P? Por que não T?

Não tô nem aí se não falo nada, se ela não fala nada. Não quero olhar para o lado, não sei nem a cor da blusa que essa pessoa usa. Nem mesmo sei se é homem ou mulher. Não me importa. Só quero ir para casa. Estou cansada. O elevador pára e antes que pudéssemos sair logo daquela caixa , uma senhora toda sorridente na recepção do prédio pergunta: "Sobe?"

Odeio quem não sabe chamar elevadores.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Mudas

Estou muda. Garganta arranha. Vida dificil de engolir.
Sou muda. Semente nova. Me rega para eu florir.
Então muda. abandona o antes. E pode vir.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Do pouco que sei


Meu futuro sempre será musical...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

one-way ticket

Se ela soubesse que as perguntas não teriam fim e que na verdade ninguém nunca iria contar nada sobre tudo, ela cresceria com medo, insegura, querendo colher pela vida vestígios de evidências de que a vida poderia mesmo valer tal pena.

Ela não tentaria, no futuro vindouro, se disso tudo soubesse, se preocupar onde ela habita; onde mora sua essência. Ela teria sido, então, uma criança acuada, observadora e reservada; e não assim como foi, sempre dada a pequenas bobagens e confianças.

Se ela soubesse que passaria a alojar em seu corpo uma angústia que até então nunca havia sido sua, trataria de ter se preocupado menos em ser complexa e intensa quando ainda tinha tempo de ser vil e inconsequente. Fútil e fugaz.

Mas agora é tarde e essa moça pensa. E essa moça pesa. Em seu íntimo ela sempre soube que valeria a pena a densidade. Sempre soube que seria mais difícil se relacionar com os outros e ser compreendida por si mesma.

Mas ainda havia muito a saber. Ainda há muito. Ela não é, mas um pouco sempre será, a menina das pequenas bobagens. Ela já sabe que não há como saber onde mora sua essência. Ela sabe que sua essência está no mundo. E que o mundo nos escapa a cada segundo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Testemunha

Beverly: Por que você acha que as pessoas se casam?

Sr. Devine: Paixão?

Beverly: Não.

Sr. Devine: Interessante, eu pensei que você fosse uma romântica. Então, por que é?

Beverly: Porque precisamos de uma testemunha para nossas vidas. Há um bilhão de pessoas no mundo, que importância tem a vida de cada pessoa, na verdade? Mas no casamento, você se compromete a se importar com tudo. As coisas boas, as coisas ruins, as coisas terríveis, as coisas comuns… com tudo, sempre, todos os dias. Você diz: “a sua vida não passará sem ser notada, porque eu estarei lá para notar. Sua vida não ficará sem testemunhas, porque eu serei a sua testemunha.”

* Cena do filme "Dança Comigo", extraida do ótimo site
Picadinho de Roteiro, dica quentíssima da parceira blogueira Milena. Vale conferir!

Rehab

Queria que todas as minhas ânsias fossem envoltas, conduzidas e intoxicadas pela fumaça fosca, às vezes cinza, que acompanha o suspiro de quem é viciado em nicotina. Eu? Desse vício eu não sofro. Minha droga é nós dois.

Zerada

Sinto-me cansada demais para criar qualquer tema mais elaborado em minha cabeça. Não faço frases bonitas, não escolho palavras rebuscadas. Quero só as simples: cobertor, música, lágrima, livro, sorriso, café, beijo, sono, abraço, lápis, travesseiro e pantufas.

Não sei mais escrever nada. Agora, só quero tudo.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

desabafo

Tava aqui pensando nessa história de blogs. Não sei o que me traz tanto aqui. Não sei porque tudo que escrevo aqui não poderia estar escrito em um caderno só meu. Afinal de contas, é para mim que escrevo o que escrevo. Ou então, quando penso em alguém quando escrevo um post, que então eu escrevesse numa folha de papel e entregasse diretamente e somente àquela pessoa. Ou melhor, e cada vez mais raro: ir ao encontro da pessoa (quando possível) e falar tudo ao vivo, cara a cara, com minha própria voz.

Mas a gente foi criando cada vez mais barreiras para esse contato direto e cada vez mais o mundo dos blogs, twitters e messengers vem tomando o lugar dos contatos reais. E vem o velho problema da comunicação. Eu digo o que sinto? Eu expresso com as palavras certas um sentimento que por vezes é tão abstrato e complexo que muitas vezes só um olhar ou um toque poderiam dizer com precisão?

Sei la. No fim das contas acho que os problemas de comunicação estão ao vivo, por telefone, por computador, por blackberry...

As vezes me canso disso tudo.

Mas é assim no blog. É assim na vida. Vamos estar sempre lutando para tentar nos comunicar e expressar o que a gente sente. E TENTAR sermos compreendidos, quando possível.

Será que vocês me entenderam?

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Campo de batalha

Primeiro arranquei meu estômago
para que eu engolisse todo possível
E chegasse até meu âmago.

Em seguida foi a vez do rim
Então não havia filtro para impurezas
E eu pude enxergar tudo, enfim.

Logo retirei meus pulmões e pâncreas
E meu fôlego e minha saúde acabaram,
juntamente com minhas ânsias

E agora já estou sem ação
Vazia e pura como eu queria,
Somente cérebro e coração

A carcaça que restou
Deixei como campo de batalha
Para essa luta, que ainda não findou

Não sei por qual dos dois mais me guio
Só sei que aos poucos me retransplanto
E quem sabe assim, devagar, me recrio.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Frases soltas

Em terra de cego, quem tem um olho é desacreditado por enxergar o que os outros não podem ver
.:.
Para um bom entendedor, meio olhar basta.
.:.
Queria que a vida tivesse vácuo
.:.
Nasci pronta para morrer despreparada
.:.
Ontem Bukowski me engoliu. Ou - como ele diria - me comeu
.:.
Descobri que insights fortes demais me fazem ter vontade de rir
.:.
Contrariando o poeta: Eu só vou gostar de quem gosta de si
.:.
É preciso estar pronto para ter sorte
.:.
A pior prisão do mundo somos nós mesmos
.:.
Uma amiga pequena pode ser a pessoa mais gigante da sua vida
.:.
Clarice Lispector é minha mãe. Cortázar, meu pai. Drexler, meu irmão.

sábado, 7 de novembro de 2009

Simplesmente ela

Simplesmente ela é quem me fez acordar as 7 da manhã, com olhos atentos, mesmo com um resto de sono, mas sem vontade de estar mais adormecida. Uma vontade de despertar, uma vontade de ser mais e por mais tempo.

Não posso descrever o que senti após apenas 1 hora e 15 minutos de Clarice Lispector na veia. Ela estava ali, personificada por Beth Goulart, brilhante, diante dos olhos da platéia; nua, exposta, brincando conosco, nos mostrando o que a escrita significava para ela, mostrando como tentava ensinar às suas personagens como viver mais, como ver o sublime em qualquer folha, em qualquer coisa. Ensinou que o horror está mais dentro de nós do que sempre suspeitamos, e que é sempre no ordinário que a verdade se mostra a nós. Ela dizia que não escrevia por notoriedade. Que escrever era uma necessidade básica como beber água, como comer e que nunca quis notoriedade através de sua escrita.

Me senti pequena. Me senti desafiada, me senti com vontade. Mas quem sou eu para querer ser alguém? Mas quem sou eu que também quer ser ou por vezes se julga ser escritora depois de ouvir e ler Clarice? Como ela conseguia escolher tão bem palavras doces e fortes, suaves e profundas e ao mesmo tempo ser tão simples, tão direta, tão visceral?

Eu não sou Clarice. Eu sou Luciane. Eu não sei se sou escritora e às vezes perceber que o blog é um espaço de vaidade sim, de notoriedade sim, me envergonha. Ao mesmo tempo, é esse espaço aqui que me fez escrever mais, é isso aqui que me fez querer sentar ao computador as 7 da manhã de um sábado e falar sobre tudo o que assisti e não assisti. Pensei ontem em como seria se Clarice vivesse nos dias de hoje. Será que ela teria um blog? O que pensaria disso?

Eu não consigo ter tudo registrado na minha mente. Todo o texto. Queria guardar tudo num gravador mental para poder ouvir de novo e de novo. Ela ensina a viver, ensina a não ser simples na vida, ensina a gente aceitar e querer o não-ser, o não-saber. Isso alivia mas também provoca, inquieta. E ontem eu senti uma sensação que poucas vezes já senti: momentos de tamanha beleza, de um texto tão sublime, que as lágrimas chegavam com uma felicidade e uma tristeza nas mesmas proporções e as lágrimas também davam uma vontade incontrolável de rir, não sei se de nervosa, não sei se isso ocorre quando a gente finalmente se enxerga em algo ou em alguém. Uma tensão. Uma paixão. Um tristeza profunda e uma alegria imensa ao mesmo tempo.

Isso é tudo que eu consigo dizer por enquanto. Eu quero mais Clarice na minha vida. Eu quero ainda mais poesia, ainda mais música, ainda mais arte na minha vida. Quero ainda mais complexidade na minha vida. Sim, sim, eu quero ser complexa, quero ser sinuosa; não quero ser óbvia, não quero ser estável, não quero ser simples. E quero equilibristas como eu por perto. Quero quem possa encarar os abismos da vida comigo, para que então possamos cair na gargalhada, porque vamos descobrir que na verdade é o abismo quem nos olha.

E seguir pela vida, escrevendo, amando e sendo boba.
Simplesmente eu.


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Tarja preta

Endovenoso quando
escorregar por minhas vias,
invadir meus órgãos,
irrigando todas as bordas
e superfícies internas.

Subcutâneo quando agir,
bordeando minha camada exterior,
sondando de perto a minha derme,
Me enxergando inteira por dentro,
drenando quem eu tento ser.

Oral quando eu o engolir e
for ele quem me devore, me sorva.
Percorrendo minha garganta e
indo direto ao meu estômago
Ora minha náusea, ora meu conforto.

Que seja essa a minha droga, meu remédio.
Que eu conheça toda sua posologia,
As contra-indicações,
E a dose que possa ser fatal.

Não quero mais bulas.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Limites

Agora chega, ela disse. Não, ela não disse. Ela cuspiu essas palavras só depois de terem sido ditas por ele. A originalidade nunca fora seu forte. Não havia mais nada a ser tentado porque não havia mais dor que coubesse no peito.

Ela seguiu: Preciso aprender a impor fronteiras para saber até onde vou e ate onde tu chegou em mim. Não quero, mas preciso. Não posso, mas devo. Me ajuda. Se minha pele falasse agora ela iria gritar, iria pedir que tu a domasse, que tu a perdoasse, ela iria dizer que eu me perdoei, que perdi todos os pelos do meu corpo queimados pelas minhas chamas que te arderam tanto tambem. Agora estou cansada. Só preciso dormir um pouco.

Não existe tempo, não existem anos, nem dias. Existe, sim, uma eternidadade que recai sobre minhas costas. A eternidade do que eu nunca havia aprendido antes. A eternidade de tudo o que não seja tarde. Tudo que não tarde.

E assim se foram, até o próximo nunca mais.

LÍMITES
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí la sed,hasta aquí el agua?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el aire, hasta aquí el fuego?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el amor,hasta aquí el odio?
¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el hombre, hasta aquí no?
Sólo la esperanza tiene las rodillas nítidas. Sangran.
Juan Gelman

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Pobre Narciso

O grande golpe foi quando descobriu que era ele quem estava preso dentro das águas do rio. Apenas uma imagem encapsulada, refém da estiagem que não tardaria em chegar.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Drive with your mind

Feriado com direito à praia mas, consequentemente, algumas horas de estrada e mais consequentemente ainda, algumas oportunidades de reflexão.

Enquanto dirigia e ultrapassava, comecei a perceber o quanto nossa vida e forma de viver podem ser relacionadas a uma viagem dessa natureza. Claro, viagem nas estradas brasileiras, porque se fôssemos falar das auto-bans européias a vida seria bem mais fácil...mas muito mais rápida.

A cada ultrapassagem que eu fazia ficava aliviada pensando: "Ufa, ultrapassei esse caminhão lento, agora foi". Alguns metros adiante, outro caminhão e vários outros carros que, como eu, queriam chegar o quanto antes ao destino. Então, cada ultrapassagem é um esforço e tem que ser curtida, tem que ser um esforço, mas não adianta vibrar muito porque logo ali em seguida haverá outros, e o caminho nunca estará completamente livre para que aceleremos na velocidade que gostaríamos. E não é assim na vida também? Cada desafio ou cada problema que enfrentamos pensamos: "Quando isso passar, daí sim tudo vai ficar bem, daí sim vai dar certo, daí sim chego onde eu imaginei". Mas então outro caminhão aparece e temos todo o esforço de novo. Mas dirigir na estrada não é uma delícia? Quando a estrada está muito vazia, muito reta e muito igual não dá um sono? Pois é. Se na vida também não tivéssemos nossos caminhões iríamos dormir mais cedo. A adrenalina da ultrapassagem é que nos mantem vivos.

E aí, quando já no meu destino, conversando com a minha mãe sobre a vida e coisa e tal falavamos sobre o tempo e as oportunidades, quando ela diz: "e a vida passa tão rápido, e é só uma". Apesar de ser uma colocação das mais óbvias, dessa vez ela ficou retumbando na minha cabeça. E logo me veio a palavra que tem a ver com meus devaneios rodoviários: Velocidade.

Qual é a velocidade certa de uma vida? Daí pensei que na fase de vida que eu me encontro eu quero começar a ver as coisas acontecerem mais rápido. Quero crescer profissionalmente, emocionalmente, afetivamente, construir uma família, poder conquistar tantas coisas que eu sonho...e a medida que os anos passam vamos tendo mais pressa. Mas o que mais vou tendo certeza é que quanto mais pressa temos menos conseguimos isso. Mas não dá para ficar parado também! Então, qual é a velocidade certa?

Por enquanto eu ainda não sei. Na estrada temos pardais, controles de velocidade, limites. Na vida, não temos como medir essa velocidade, mas somos, e muito, multados por nossas infrações. Só sei que é preciso continuar com o motor rodando e que, assim como na estrada, muitas vezes a pressa pode ser fatal.

Sigo em viagem.