terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Um bom churrasco e Tzedaká de sobremesa!

Ontem eu tive um daqueles momentos da vida, aquele fugazes, que a gente nem nomeia, só mesmo depois e olhe lá, de uma felicidade assim sem razão específica. Senti uma alegria por estar viva e bem, e sendo capaz de pensar, refletir e realmente (con)versar.

Toda essa sensação, rápida, fugaz, mas tão complexa de se atingir foi num simples jantar, numa simples e deliciosa churracaria, acompanhada do meu pai, minha mãe, a prima da mãe e uma amiga de looonga data da família, que eu poderia chamar de segunda ou terceira mãe.

Além das eventuais e comuns brincadeiras e conversas fortuitas, o papo foi aprofundando, aprofundando, até cairmos no interessante e arriscado terreno de falar sobre religião. Sempre temo em abordar esse assunto, principalmente devido ao fato de eu sempre ter sido um pouco radical em minhas opiniões sobre esse tema. Mas enfim. A prima da minha mãe anda estudando muito o judaísmo, religião da qual sinto orgulho em pertencer, mesmo sem entender completamente que pertencimento é esse, ou o que me faz ser judia.

Bom, mas essa é uma reflexão que caberia em mais ou menos uns 1000 posts.

A parte que me prendeu e que eu trago aqui para dividir foi quando ela começou a falar sobre um conceito judaico chamado Tzedaká. Tzedaká é uma expressão que se origina da palavra Tzedek em hebraico, que significa justiça. A religião judaica prega que o tzedaká é uma obrigação de qualquer pessoa. Que fazer justiça, fazer o bem, dar alguma coisa de si a alguém que necessita é um dever de todos. Além disso, essa "doação" tem que ser algo feito não por piedade ou por compaixão, mas por dever (tudo bem, essa questão de ser uma obrigação me incomoda um pouco, mas o mais interessante vem agora...)

Ela seguiu dizendo, e isso não vou esquecer, que a generosidade não está no ato de dar ou doar, que a bondade não é do doador porque esse supostamente é seu dever e não um favor. Generosidade é de quem RECEBE a doação ou a entrega porque está dando ao outro a possibilidade de exercer seu dever. Percebem a quebra da lógica? Achei isso fantástico. Justamente porque dá ao recipiente um poder que geralmente não lhe atribuímos. Sempre parece que quem recebe algo é o mais desprivilegiado, mas nem sempre temos que enxergar dessa forma. Privilégio quem recebe é aquele a quem é dado a possibilidade de se dar. Lindo isso... Principalmente na área onde eu trabalho, onde vejo pessoas que não tem essa generosidade: a de se deixarem ser ajudadas. É uma falta de possiblidade (seja por falta de vontade ou de condições emocionais) de propiciar ao outro o privilégio que é poder ajudar, no sentido mais puro da palavra. Quisera todos pudessem sentir o privilégio de serem permitidos e consentidos a verdadeiramente ajudar alguém.

Quebrou minha lógica, me fez pensar. Cresci. Mas então generosa não foi a prima da minha mãe que me deu esse presente e me fez sair mais rica da churrascaria. Generosa fui eu que proporcionei a ela a oportunidade de me entregar algo que ela tinha e que quis compartilhar comigo. A maior riqueza que alguém pode dividir com outros e que quanto mais divide, mais multiplica: a sabedoria.

4 comentários:

Henrique Crespo disse...

Legal ver você escrevendo por aqui.

O prazer de aprender é uma delícia.

A sabedoria mais valiosa vem sempre de algo simples né?

Beijos

Lu disse...

Pois é, Rick...quando e onde a gente menos espera, acaba aprendendo alguma coisa. E sim, as mais simples e mais importantes!
Beijo!

Beth disse...

Lu, adorei teu blog! Escreves super bem, de uma forma leve e muito clara e concisa!
Muito interessante esse modo de ver as coisas e parece bastante lógico para mim!

Muitos beijos!

Beth disse...

Ah! E te sugiro ativar a moderação de comentários.