segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Suicídio imortal

Já faz dois meses que eu me matei. Eu voluntariamente sofri um acidente e perdi a vida que eu tinha.


Com ela, tudo o mais partiu-se e partiu: Me despersonifiquei, me descorporifiquei, me desossei.


Hoje eu sou uma nuvem de idéias e filosofias baratas. Venho tentando me reorganizar e encontrar um novo corpo. Porque dores sem corpo não podem existir. E almas sem dores menos ainda. Procuro um corpo para alugar a minha dor.

Nesse meu necrotério não há esquecimento nem rasgos. Resta apenas uma sutil perplexidade. As pessoas não parecem mais humanas e eu escolhi permanecer me sentindo morta assim. Isso não é ruim. Não é solidão. É simplesmente um perído de autópsia que me traz uma vaga sensação de distanciamento, de pausa, como se agora eu estivesse regulada por uma velocidade íntima e particular.


Eu não morro por ninguém, mas vivo porque amo. Perdão, mas continuarei morta por mais um tempo. Até que meu óbito me faça sentido e esse meu cadáver dissecado volte a irrigar meus sonhos, minhas veias, e o cálcio fortaleça meus ossos para os meus próximos suicídios.

2 comentários:

ELtaura disse...

Fantastico bonita.

Webert Gomes disse...

Próximos suicídios. A quanto mais terei(mos) que (nos) dar?