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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

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E de repente a morte, essa do não mais respirar ou existir, virou coisa pequena e boba. Quando ela percebeu que existe bem mais dor do que a de sufocar e que o coração pode doer mas também gozar muito mais até a hora em que resolver parar, começou a sorrir. E o lenço que envolvia suave seu pescoço alvo voou e foi pousar delicado e solene na grama que ela pisava e tudo começou a ter sentido. Ela fumava, e ficava a suspirar que a vida lhe intoxicava. Ela bebia, e esbravejava que a vida lhe embriagava. Mas nada disso era correto. A única certeza que agora ela carregava era o vento, e foi nesse instante que ela percebeu o óbvio: de que os olhos secam quando não piscamos, de que a garganta seca quando não aprendemos a calar. E ela calou, e piscou. Sentou, respirou, sentiu o batimento do próprio coração e começou a viver.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A função mix

Ela nao sabia que a vida sempre teve a mesma função mix da câmera Lomo que usava. A função mix coloca, em uma mesma imagem, cenas de "clicks" distintos, como se estivessem sempre ali, integrados. Ela, que nunca havia aproveitado o seu mix como poderia. Ela, que passara a vida tentando distinguir cada imagem, separar eventos, pessoas, separar a razão da emoção, o lógico do irracional, o amor da dor, via-se então misturando cenas e sensações em seu olho diafragmático.

Não havia mais como separar sua história nem seu corpo de sua vida. Ela agora era uma, íntegra, inteira e imperfeita. A fotógrafa de sua própria história.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Odeio quem não sabe chamar elevadores

O pequeno painel eletrônico acima da porta indica que o elevador ainda está a muitos andares de chegar até mim. A porta fechada e eu ali o esperando. Outra pessoa então se aproxima, eu a olho por um milésimo de segundo e sorrio muito discretamente. Cansei de me emprestar assim por pouco. Sorrir não é mais tão simples, não é apenas mostrar os dentes. Sorrir hoje carrega um esforço de erguer os cantos da boca repuxados por uma esperança que ultimamente tem me faltado.

Eu não quero mais olhar para a pessoa que aguarda pelo elevador ao meu lado. Odeio pessoas que não sabem chamar o elevador: se querem subir e o elevador está andares acima, apertam o botão para ele descer. Pessoas estúpidas que acham que podem mandar o elevador descer até elas. Devíamos tratar elevadores e pessoas do mesmo jeito. Sinalizamos o que esperamos deles. E então que ele venha até nós. Não posso mandar que alguém desca ou suba até mim antes de dizer o que vou fazer com esse alguém. Odeio quem não sabe chamar elevadores. Odeio quem não sabe chamar por mim. Odeio o fato de pessoas não serem tão simples como elevadores e, ainda assim, até os elevadores parecem tão difíceis para tantas pessoas.

Quando a porta finalmente abre, entro e dou uma rápida olhada para minha imagem no espelho. Pareço cansada. Olheiras disfarçadas pela base e pelo pó, mas não disfarçadas pelo brilho dos meus olhos que instantes atrás se apagou. Não sei se foi o peso do dia, se foi a expectativa ainda não alcançada ou o café morno e fraco da lancheeria da empresa. O rímel parece estar ali tentando erguer meus cílios com a mesma força que tive que fazer para levantar da cama nessa manhã. Olho para mim mesma no espelho como quem cumprimenta um conhecido distante, com um mero levantar de sobrancelha.

A pessoa me acompanha, entra e permanece ao meu lado. Estamos indo ao mesmo andar. Descendo. "Térreo, por favor", ela diz. Não sou ascensorista e vê se presta atenção. Eu já tinha apertado no térreo, não viu a luzinha do "P" acesa? Essas palavras só gritaram na minha mente, é claro. O silêncio desceu conosco do 7° andar ao térreo. E aliás, por que o térreo é representado pela letra P? Por que não T?

Não tô nem aí se não falo nada, se ela não fala nada. Não quero olhar para o lado, não sei nem a cor da blusa que essa pessoa usa. Nem mesmo sei se é homem ou mulher. Não me importa. Só quero ir para casa. Estou cansada. O elevador pára e antes que pudéssemos sair logo daquela caixa , uma senhora toda sorridente na recepção do prédio pergunta: "Sobe?"

Odeio quem não sabe chamar elevadores.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Um mar de oportunidades

- Uma onda não é só uma onda. É uma oportunidade.

Após estarem sentados os dois em um silêncio cúmplice à beira mar, aquela fala a desconcertou e a fez pensar que, de certa forma, o mar é como a vida; que todos somos surfistas ávidos pela onda perfeita. A oportunidade perfeita. E começou a pensar sobre como vinha usando as suas oportunidades, em como estava surfando suas ondas.

Preparava-se o suficiente? Aquecia antes de entrar no mar para evitar cãibras? Protegia-se do frio com sua roupa de neoprene? Passava parafina o suficiente na prancha para que não escorregasse e tomasse uma "vaca"?

"Fácil reclamar das ondas", ela pensou. "Dífícil é preparar-se e perceber que a boa onda é resultado não da sorte, não só das marés, mas da nossa dedicação e da perspicácia de estar no momento certo, na hora certa."

Olhou para o mar e viu aqueles surfistas todos, sentados em suas pranchas, à espera da onda perfeita. Olha para ele e pergunta:

- Na vida então ficamos todos assim, nessa espera? Como, entre tantos outros, conseguirei eu ser a dona da onda, usá-la, percorre-la, saboreá-la?

- Talvez o segredo não esteja na competição em si. Porque posso até chegar primeiro na onda, mas posso estragar tudo, posso desperdiçá-la. Então não devemos nos preocupar tanto em competir com os outros pela conquista da onda, da oportunidade. Porque isso é só o começo. Se eu focar somente no ganho da oportunidade e não em usá-la bem, de nada adiantará tê-la ganho... O desafio vem depois, em percebermos nossas competências ou não para administrar essas oportunidades. A competição é conosco, com nossas fraquezas, nossos temores e nossas inabilidades...

"É", pensou ela. "Há que se seguir em eterno treino, parafinas e neoprenes... e quando formos os donos de nossas ondas remar, remar muito para não as perder. E não esquecermos de nos divertir também, aproveitarmos a delícia e o desafio que cada onda nos oferece"

E os dois voltaram a ficar em silêncio, em frente ao mar, surfando juntos essa e tantas outras ondas que ainda estariam por vir, nesse vício apaixonante que é a vida.