sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Pássaro que sabe quando deve voar rumo ao chão é que sabe ser livre

Como eu poderia explicar ao pássaro que ficou preso no último andar do prédio que para ele se libertar ele deveria voar para rumo ao chão, que é a saída para a rua da garagem por onde equivocadamente ele entrou?

Assisto impotente ele se debater contra o teto do prédio, machucando suas asas. Ele jamais poderia pensar que voando para baixo encontraria o caminho para sua liberdade. Pássaro aprende a voar para o alto, para frente. É assim que ele vive e acha que pode sobreviver. Mas nesses voos muitas vezes impensados ou não calculados pode-se entrar em armadilhas, que não são feitas por ninguém, que fique claro. Apenas acontecem. E então o menos provável para a salvação parece ser a ida às profundezas, a descida.

Sigo escutando o barulho angustiado das asas contra as paredes e penso em nós, em nossas encruzilhadas, e em nossos medos de voarmos para baixo, sem sabermos que muitas vezes é caindo que poderemos voltar a voar. E aprender a usar nossas asas para sermos efetivamente livres.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A resposta é a desgraça da pergunta

Hoje tive a honra de ser a convidada da Carol no seu delicioso blog "Vinhos, viagens, uma vida comum,...e dois bebês!"

Obrigada, minha amiga!

sábado, 23 de outubro de 2010

Sentidos


É na intensidade das coisas que os sentimentos parecem se esconder o mais fundo possível, como se quisessem nos desafiar, testar para saber até onde iríamos para realmente conhece-los. Ate onde podemos persegui-los? Até onde queremos realmente encontra-los?

Eu não sei se exagero nos meus confrontos ou se menosprezo minhas ideologias mais fúteis. O que sei é que de tempos em tempos a ameaça do fim da ilusão de eternidade me assombra e por vezes é muito mais do que temor existencial.

É um susto por perceber o quão grande é a vida, o quanto podemos, se quisermos ou conseguirmos, sugar dela o máximo, aprender com ela, ganhar com ela, perder com ela, morrer com ela. Essa vida do dia-a-dia mesmo, não a vida enquanto conceito abstrato ou generalista. Senão acreditamos que a vida é uma coisa imensa, intangível e até impossível. Enquanto que o que ela realmente é só aparece nas coisas mais simples. Sentir é estar vivo. Parece simples, mas não é.

A busca de um sentido para a vida, independente das circunstâncias. Eu não entendo mais nada de circunstancias, expectativas ou resultados. Eu só entendo o que eu sinto e já faz um tempo que é desse código que venho me ocupando. O sentido é sentir.

Pensar é necessário, saber deixar-se sentir é sagrado.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O pacote da vida


Eu preciso respirar fundo e conviver mais com a minha escrita. As palavras passeiam pela minha cabeça mas eu não acho que venho as tratando com o respeito que merecem. Eu conto que elas vão seguir por aí, esperando por mim. Mas palavras são como o tempo: não esperam e nem cobram. Simplesmente passam e somem, se não forem devidamente degustadas.

Eu não quero mais perder palavras nem tempo. A vida vem me ensinando a ter menos pena da vida. São sentimentos ambiguos, colaterais, perplexos. É o pacote de estar viva que às vezes fica gigante feito presente de aniversário que uma criança quer agarrar com as duas mãos e não consegue porque é tão maior do que ela mesma.

Eu quero rasgar meu pacote com entusiasmo infantil, para descobrir logo como brincar com essa vida.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Quanto mais, mais


Quanto mais tempo fico sem escrever, mais coisas tenho para dizer, e portanto mais dificil fica de escrever.

Quanto mais medo tenho de viver todos os riscos que uma vida pressupõe, mais vontade dá de arriscar tudo só por breves e incontroláveis momentos de felicidade.

Quanto mais eu aprendo a expressar meus desejos, mais eles me agradecem e me presenteiam com sua presença consciente -os bons e os ruins. Porque sentimento ruim também pode ser dádiva.

Quanto mais eu aprendo, mais eu me vejo menina.
Quanto mais eu me molho, mais aprendo a reconhecer quando a chuva está por chegar.

Quanto mais eu leio Clarice, mais e mais eu amo Clarice.

Quanto mais eu amo, mais percebo que esse amor que vem de mim acaba voltando para mim, como um auto-amor, simplesmente pela possibilidade de exercer a liberdade de amar (quase) sem medo.

Quanto mais eu escrevo, mais eu não sei.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Chega mais perto

Senta aqui, chega mais perto, porque tenho tanto a te contar. Já faz tanto tempo que não te vejo e a vida não tem mais sido a mesma. As pessoas hoje conversam por uma tela de computador e eu sinto falta de enxergar o meu reflexo na retina de quem me ouve.

Chega mais perto porque preciso te contar de tudo o que venho ouvindo e vivendo, preciso que entendas tudo que se passa comigo e que saibas que hoje eu já não sou mais a mesma. Às vezes eu penso que devem existir várias outras de mim soltas aí pelo mundo, uma para cada época do que fui. Deve ter gente que nunca vai ter uma réplica sua na vida, não é mesmo? Fica sempre igual a vida toda. Eu devo ter tantas cópias de mim soltas por aí...

Mas senta aqui, chega mais perto e conta um pouco de ti. Mas não conta qualquer coisa. Me fala de ti, me fala do que tu sentes, do que és, me fala do que tu nem mesmo sabes e que somente quando ouvires as palavras saaindo da tua boca é que vais perceber quanta coisa havia aí dentro. Fala comigo e deixa que eu acompanhe teus lábios, deixa eu saber e entender quem és, mesmo que a gente se conheça há tanto tempo... Parece que ninguém mais sabe conversar hoje em dia.

Chega mais perto, pega na minha mão e olha silente nos meus olhos. Apenas por alguns instantes. Não precisa ser sempre, porque dói. Olha o suficiente para que eu te leias, o suficiente para que a gente lembre que palavras tantas vezes não atingem o que pode dizer uma lágrima.

Eu olho para essa cidade que hoje nos cerca; seus carros, seus edifícios, seus operários fardados de gravata... Haja céu para tanto concreto. Haja reflexo para tanta luz. Eu que já não entendo mais tanta coisa e ao mesmo tempo vejo tudo mais claro, me vejo hoje em olhos de mulher feita, e isso me agrada.

Não fala nada e nem precisa lembrar do que eu acabei de dizer. São só palavras. Apenas chega mais perto, aperta minha mão, e vive esse mundo todo aqui comigo.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Des-abafos

"Quando a felicidade chegar tenha o cuidado de olhar em sua bagagem para certificar-se de que ela já não pesa demais e que ainda há espaço para o novo. Espero que não tenhas permitido que as rodinhas dela tenham quebrado e o zíper emperrado. Há que se fazer lugar para ela porque ela é matreira e fugidia. Não tente carregá-la consigo porque ela não é coisa, não é o destino, é somente mais um caminho. As vozes ao teu redor tentarão te atrair para os pequenos hojes e as pequenas raivas mundanas. E precisarás dessas coisas também, para respirar um pouco. A verdade sufoca, às vezes, quando em excesso. Mas essas pequenas tristezas e os grandes dramas que nos contam são também nossos e o cansaço é permitido desde que seja louvado ( e não propagandeado). Eu não tenho medo da minha bagagem e nem do meu cansaço. Eu tenho medo é dessa anestesia que me rodeia. Eu tenho medo é dessas palavras sem boca que voam por aí virando vocabulário do mundo. Eu acredito que preciso descansar um pouco da minha alma inquieta, mas talvez não. Talvez eu tenha passado a vida toda descansando e agora o que eu preciso é da exaustão. Do irracional e do ilógico, porque eu não suporto mais esse apaziguamento retido. Eu não suporto mais falsos moralismos, lições prontas, frases feitas, roupas que não me cabem e auto-enganação"