sexta-feira, 31 de julho de 2009

Desejos de uma sexta-feira qualquer

Que o infinito traga a possibilidade da inconstância

Que o vento desmanche tudo que é concreto

Que possamos estar certos que certeza não há

Além da vontade de ser mais

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Tu y Jo

Ele notou
Ela sorriu

Ela de cabelos molhados
Ele de ressaca

Ela desentendida
Ele sabendo tudo

Os dois acharam que não.
Escoriações antigas faziam neblina

Ele atraído
Ela assustada

Ele encantado
Ela apaixonada

Eles querendo futuro
E os passados levados embora

E de tantos presentes
Tornaram-se somente deles.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Decantada

Procuro poemas ou canções
Que falem por mim
Que me ilustrem e metaforizem.

Leio Clarices, Caios e Pessoas.
São gênios, mas não me leem toda.
Precisava de algum poeta que dissesse:
"Atenção a todos, essa é a Luciane"
Mas não há.

Eles escrevem coisas lindas, esses letrados.
Palavras escolhidas com esmero, rimas ricas,
sentidos profundos, canções.
Mas não me conhecem de verdade.

Então hoje sou eu a minha poeta.
Escrevo meus não-poemas e digo:

Que a vida tem me sido generosa,
na dose certa de dores e paixões,
temores e ousadias, aventuras e tédios.

Que sou essa tênue lembrança do que já fui,
para não me perder no que venho me tornando.
Esse ser novo, maciço, compacto,
mas também poroso, sedento, aberto.

Que sou dura e flexível, contente e dramática.
E ninguém consegue poetizar quem sou
a não ser eu mesma.

Que sou uma adega de descobertas caladas,
Mas descobri um leitor, um degustador
Um aliado que me saboreia com cuidado,
deixando-me respirar, como faz com um bom vinho.
Me combinando com maestria a seus sabores.

Digo que a minha poesia é assim, sem sentido,
desconjuntada, sem rima nem platéia.
E essa sou apenas eu. Pronta a ser vivida.

Que sou lenta para não perder nada.
Mas veloz para que a trilha não acabe logo.
E ainda há muito a percorrer.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Apego

Já falei aqui sobre vôos, sobre quedas, abandonos e recomeços... Hoje, um dia antes de completar meus 31 anos, penso no desapego. Ou melhor, no apego. Nesses tempos de relações rápidas e frustrações lentas, de descréditos imediatos e insatifações permanentes, parece cada vez mais inédito falar sobre vínculos. Sobre laços e a capacidade de ligação e entrega.

O que é que de fato nos liga a alguém, o que nos conecta, nos faz criar com determinadas pessoas canais que se tornam exclusivos e insubstituiveis?

Esse fim de semana, estando frente à natureza em sua forma mais sublime e natural, me botei a pensar em como somos pequenos diante do mundo, e, paradoxalmente, como nos julgamos deuses. Esse equilíbrio é tênue. Não podemos esquecer que somos apenas mais um, mas ao mesmo tempo precisamos nos sentir únicos, especiais, insubstituíveis. Nesse panorama, muito do que ainda nos define é nosso trabalho. O que eu faço, quem eu sou, do que me fantasio durante a semana "útil"; do que me escondo ou me protejo. Então, quando nos despimos desses papéis, aparece quem realmente somos, as relações que realmente construímos. Nossos vínculos. Você sabe o que sobra quando se despe do que acredita que seja? Você sabe quem está ao seu lado?

Não somos mais os casacos que vestimos, somos o frio.
Não somos mais nossa profissão, somos formados pelo que sonhamos.
Não somos mais acompanhados por quem nos escolhe, mas por quem escolhemos também.
Não somos mais paisagem de uma vida, somos a própria vida.
Não somos mais os papéis determinados, somos pedaços de quem admiramos.

Eu custei a aprender a construir vínculos, a me entregar a eles, a correr o risco de passar o frio para que o casaco não me limite, não me sufoque. Eu posso até tremer, quem sabe até congelar, mas o que me aquece é a ousadia de ver a paisagem e ter mobilidade para tentar ser feliz.

Sim, nós somos apenas mais um ser minúsculo no mundo, mas nos tornamos gigantes quando somos o mundo para alguém.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Os limites do infinito.


O limite do infinito é o seu próprio início.

O fim é justamente onde tudo começou.
Então não há por que correr.

Terminaremos exatamente onde começamos,
nesse eterno retorno de desejos e medos.

Deve ser lenta a caminhada,
no tempo que a vida a requer.

Para que não pensemos, erroneamente,
que estamos a dar voltas no mesmo lugar.

A paisagem tem de parecer e ser nova,
mesmo sendo geograficamente a mesma.

Porque nós é quem já não seremos mais quem fomos.
.:.
"We shall never cease from exploration
And the end of all our exploring
Will be to arrive where we started
And know the place for the first time."
T.S. Elliot

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Babushka

Assim que eu me sinto. Como uma Babushka. Quando revelo uma nova Luciane de dentro da antiga vejo que há sempre mais uma escondida nesta. Sei que esse processo não para. Sei que a graça da coisa é justamente a sucessão de descobertas, as novas Lucianes que ainda estão por vir. E, mesmo complexo, às vezes cansativo e sempre desafiador, eu quero seguir me desvendando até chegar lá, na última bonequinha, na minha mais pura essência, da qual nada mais pode estar descoberto. Mas só quando eu estiver assim bem velhinha, pronta para descansar.
Até lá, segue o baile, sigo crendo para ver.