domingo, 4 de outubro de 2009

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Teu armário sem portas


Teu armário deveria ter portas
Pois as roupas que te cobrem
Precisam ser cobertas de mim

Não verei tuas peças expostas
Para não recordar o que cobriam:
O corpo que me acobertava sem fim

Então tornei-me de mim a denúncia
E não quero mais portas no meu armário
Minhas roupas ao vento e eu nua, crua.

Para que eu mesma me cubra, me cobre,
os sentidos recobre e então finalmente
te acoberte, e seja toda e sempre tua.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Instruções para restos de inverno

Não se engane: o inverno não nos deixou
E nem esse resto de frio a mim te mostrou.

Inverno encolhe, recolhe, escolhe.
Primavera expande, renasce, redime.

Não se engane: Primavera só no calendário
Muitos invernos permanecem vivos
em cobertores guardados no armário.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Cortázar de perder o fôlego

TU BOCA

Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.

Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto.

Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio.

Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura.

E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela.

E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.

POEMA

Te amo por cejas, por cabello, te dabato en corredores blanquísimos donde se juegan las fuentes de la luz,

Te discuto a cada nombre, te arranco con delicadeza de cicatriz voy poniéndote en el pelo cenizas de relámapago y cintas que dormían en la lluvia

No quiero que tengas una forma, que seas precisamente lo que viene detrás de tu mano, porque el agua, considera el agua, y los leones cuando se disuelven en el azúcar de la fébula, y los gestos, esa arquitectura del nada, encendiendo sus lámparas a mitad del encuentro.

Todo mañana es la pizarra donde te invento y te dibujo. pronto a borrarte, así no eres, ni tampoco con ese pelo lacio, esa sonrisa. Busco tu suma, el borde de la copa donde le vino es también la luna y el espejo, busco esa línea que hace temblar a un hombre en una galería de museo.


Además te quiero, y hace tiempo y frío.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O dia do perdão

Hoje é dia de Yom Kippur. O dia do perdão. Um dos feriados judaicos mais sagrados, porque significa um dia em que o povo reflete sobre os erros cometidos no último ano. Tradicionalmente é um dia de ponderação, de reflexão, de isolamento. O jejum faz parte desse dia como símbolo da privação dos prazeres em prol de novas atitudes a serem tomadas no próximo ano.

Eu não sou judia fervorosa. Não pratico os rituais e costumes além do mínimo necessário. Sempre achei o dia do perdão algo que vem perdendo seu sentido, pois para mim não é deixando de comer que eu vou "pagar" pelos pecados que cometi. Mas fiquei me perguntando sobre a validade de existir um dia em que as pessoas param com todas as atividades que lhes distraem de si próprias e vão para a sinagoga rezar, refletir, replanejar a vida.

Meu Yom Kippur tem sido longo. Não faço jejum gastronômico mas faço um jejum das bobagens, faço jejum das ilusões, das falsas promessas que sempre me fiz, de relações vazias, de mentiras, de tantos prêmios falsos que já me dei.

Mas a vida não para e não posso jejuar enclausurada no meu quarto. Para isso não há feriado. O jejum tem de ser feito na própria vida. E não há tal coisa como o dia do perdão. Há, sim, o dia em que nos absolvemos de nós próprios, o dia em que paramos de nos auto-flagelar e descobrimos que nossos maiores pecados são contra nós mesmos.

Meu novo ano está prestes a começar.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A cura


Não é mais o teu olho que me sara
Agora o mundo é meu espelho
Não necessito do teu conselho
Porque sou eu quem me ampara

Recolhi as velas ao meu vento
Porque é só fechando meu corpo
abrindo mão do que chegou torto
que posso me acarinhar por dentro.

Sarar não é o mesmo que arder
Porque o que sara nem sempre cura
E não se sabe o quanto a vida é dura
Até viver a nobre lição do perder.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Pequena história de um sinistro

Invisível a si própria em seu próprio tráfego, ela andava desgovernada pela rodovia. A polícia então a para mas constata que era tarde demais. O acidente já havia acontecido há muito tempo: Insulfilm cobria seus olhos.